“Carolina Maria de Jesus”, do brasileiro Jeferson De, que ganhou o AH Media Production Award no showcase Goes to Cannes deste ano, tem como objetivo capturar a “dimensão cinematográfica” de um dos grandes nomes da literatura brasileira, diz Maria Gal (“Perfect Love”) que produziu o filme e estrela como Carolina.
Em pós-produção, o filme é baseado no best-seller mundial “Quarto de Despejo”, diário de Carolina publicado em 1960. De Jesus descreve sua vida na década de 1950 como catadora na favela do Canindé, em São Paulo, Brasil. Através de puro talento e autodeterminação, ela supera a pobreza extrema e o racismo.
“Esta não é apenas uma história brasileira, é uma história profundamente humana sobre dignidade, maternidade, carinho, fome, educação, sobrevivência e a busca de um sonho”, afirma Gal.
Jeferson De. Crédito da foto: Renato Nascimento
“Carolina Maria de Jesus é uma figura fundamental na nossa história e na literatura brasileira, e contar sua história através do cinema tem um enorme significado artístico, político e histórico”, disse o diretor Jeferson De (“Broder”, “M8”) Variedade.
Junto com Maria Gal (Move Maria), o filme foi produzido por Clélia Bessa (Raccord Produções). Os coprodutores incluem Globo Filmes, Rosane Svartman (RSMTS), Cris Arenas (Buda Filmes), Sara Silveira (Dezenove Som e Imagens) e Mact da França, com distribuição no Brasil pela Elo Studios. Maíra Oliveira (“A Magia de Aruna”) escreveu o filme e a vencedora do Sundance Lilís Soares (“Mami Wata”) é a diretora de fotografia do filme.
Goes to Cannes é uma iniciativa em andamento do Marché du Film, projetada para promover festivais de cinema em todo o mundo, estimular novos talentos e fornecer uma plataforma inclusiva para networking da indústria. A edição deste ano contou com inscrições de sete festivais internacionais de cinema.
Os outros dois vencedores foram “At Your Service” de German Golub (Estônia, Alemanha), recebendo o prêmio Ciné+ OCS da França, e “The Daughters” de Daniel Romero Bueno (Espanha, Reino Unido), recebendo o Sideral Cinema Award do estúdio espanhol.
Variedade teve a oportunidade de conversar com Maria Gal após a inspiradora vitória do filme em Cannes. Aqui estão apenas algumas de suas reflexões:
Lembro-me de minha mãe e eu lendo “Child of the Dark” quando eu era adolescente nos EUA, e nós duas adoramos o livro. Por que você acha que demorou tanto para transformar a história de vida de Carolina em um filme
Maria Gal: Acredito que uma das razões pelas quais a história de vida de Carolina Maria de Jesus demorou tanto para chegar às telas é porque a indústria audiovisual brasileira, apesar de o Brasil ser um país onde mais de 56% da população se identifica como negra ou mestiça, ainda reflete profundas desigualdades estruturais. E isso é especialmente paradoxal quando falamos de Carolina Maria de Jesus — uma das escritoras mais importantes da história latino-americana, uma das primeiras escritoras negras na América Latina a se tornar um best-seller internacional e uma autora cuja obra cruzou fronteiras décadas atrás através de “Quarto de Despejo” (“Filho das Trevas”). Há também uma crença em partes do mercado de que as histórias negras, os protagonistas negros e as narrativas centradas nos negros “não viajam”, “não vendem” ou só funcionam quando estão ligados à violência, à pobreza, ao crime ou a papéis estereotipados.
Embora até então não tivesse sido transformado em filme, houve peças teatrais e composições musicais baseadas na vida de Carolina. Algum deles teve sucesso no Brasil?
Gal: Sim, absolutamente. A história de Carolina Maria de Jesus inspirou peças teatrais, obras musicais e adaptações artísticas no Brasil durante décadas, e muitos desses projetos tiveram grande sucesso tanto crítica quanto culturalmente. Este ano, ela virou até tema da escola de samba Unidos da Tijuca no Carnaval, uma das expressões culturais mais importantes do país.
Carolina chamou seu diário de “Quarto de Despejo”. Você pode falar sobre seu significado?
Gal: Internacionalmente, o título em inglês mais conhecido do livro é “Child of the Dark”. Mas se pensarmos em uma tradução mais literal e simbólica da expressão “Quarto de Despejo”, ela estaria mais próxima de algo como Junk Room ou Dumping Room, pois no Brasil um “quarto de despejo” é o espaço de uma casa onde são guardados objetos descartados, esquecidos ou indesejados. E é exatamente essa a poderosa metáfora que Carolina usa. Ela disse que a favela era tratada pela sociedade como a “sala de despejo” da cidade – um lugar onde pessoas pobres, negras e invisíveis eram empurradas.

Carolina Maria de Jesus. Crédito da foto: Mariana Vianna
Como você se preparou para interpretar o papel de Carolina?
Gal: Como atriz, foi um papel extremamente desafiador em todos os sentidos – emocional, físico e artístico. Durante o preparo perdi 18 quilos porque entendi que o corpo da Carolina precisava levar na tela as marcas da fome que ela sentiu ao longo da vida. Carolina muitas vezes sobrevivia com sopa de ossos e outras formas improvisadas de alimentar seus filhos, então senti que era necessário trazer essa realidade de forma verdadeira tanto para meu corpo quanto para a linguagem visual do filme.
Também cortei o cabelo e passei por um processo de transformação física muito intenso. Andei pelas ruas de São Paulo e do Rio de Janeiro como catador de papel. Coletei papel, recicláveis e lixo nas ruas para compreender minimamente o cotidiano, os silêncios, os olhares e a invisibilidade social que Carolina vivenciava.
Algumas pessoas acusaram Carolina de ser bruxa porque ela sabia ler, o que não era a norma na época. No entanto, ela era na verdade muito católica, embora a Igreja rejeitasse a sua mãe por ter filhos ilegítimos.
Gal: Essa pergunta revela muito sobre o Brasil daquele período. Carolina era uma mulher negra, pobre, com educação formal muito limitada, mas extremamente inteligente, leitora e escritora. Para muitas pessoas naquela época, era quase inconcebível que uma mulher como ela pudesse escrever – e com tanta força e consciência social. Então houve muito preconceito e muitas tentativas de deslegitimar sua inteligência.
Ao mesmo tempo, Carolina tinha uma relação muito forte com a fé e com Deus. Mas a sua própria existência desafiava os padrões sociais e morais da época: ela era uma mulher negra, mãe solteira, escritora e independente num Brasil extremamente conservador.













