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A diretora de ‘Let Us Be’, Viviane D’Avilla, fala sobre iluminar os direitos intersexuais nos EUA: ‘Seus direitos estão sendo retirados’

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Há mais de uma década, a fotógrafa e cineasta brasileira Viviane D’Avilla viajou para a Índia em busca de desenvolver um projeto fotográfico baseado na cultura e espiritualidade do país. Lá, ela conheceu membros da comunidade indiana Hijra, um terceiro gênero legalmente reconhecido que abrange aqueles que são transgêneros, intersexuais ou eunucos. Esse encontro mudaria completamente o projeto de D’Avilla e se tornaria a semente original de “Let Us Be”, que teve sua estreia mundial no Raindance Film Festival.

“Let Us Be” acompanha indivíduos intersexuais — aqueles que nascem com uma anatomia que não é tipicamente masculina ou feminina — na Índia, no Brasil e nos EUA. O realizador narra as suas jornadas de autodescoberta para expor a luta contínua pelos direitos humanos contra cirurgias não consensuais realizadas em crianças intersexuais, iluminando os binários rígidos que moldam a compreensão da sociedade sobre sexo e género.

Falando com Variedade antes da estreia do filme Raindance, D’Avilla relembra aquela primeira viagem à Índia e os seus primeiros encontros com membros da comunidade Hijra, dizendo que ficou “impressionada com o contraste entre a forma como são considerados sagrados em certos contextos culturais, ao mesmo tempo que enfrentam profunda discriminação e muitas vezes vivem à margem da sociedade”.

O diretor então se conectou com Gopi Shankar, uma “ativista intersexo que luta contra cirurgias não consensuais em crianças intersexuais e também apoia pessoas LGBTQIA+ em situações de abuso e vulnerabilidade social”. A dupla passou três meses viajando pela Índia para aprender mais sobre a comunidade e o trabalho de Shankar, resultando no curta-metragem de D’Avilla, “Gopi”, que despertou nela “um senso de urgência muito mais profundo para compreender e retratar vidas intersexuais em diferentes territórios e países”.

Assim que a cineasta decidiu embarcar em um projeto de longa-metragem, ela recrutou outros sujeitos, incluindo Aanandh Rajappan, uma pessoa dalit e intersexo que vive na Índia, a autora e ativista Hida Viloria, pioneira do movimento intersexo nos EUA, e Carolina Iara, a primeira pessoa intersexo eleita para um cargo público na América Latina.

Cortesia de Viviane D’Avilla

“Encontrar participantes dispostos, que pudessem ser abertos, confiar em mim e se sentir confortáveis ​​comigo foi crucial para o sucesso do projeto”, diz D’Avilla. “Foi importante reunir essas diferentes gerações e perspectivas, mostrando como o movimento intersexo pode existir através de muitas vozes, experiências e formas de expressão.” A diretora também queria que o filme parecesse global, pois queria destacar como as questões de direitos humanos em torno das pessoas intersexuais não são “apenas sobre geografia, território ou mesmo leis específicas”, mas “sobre como as sociedades respondem a pessoas que são diferentes do que consideram ‘normais’”.

Questionado sobre a importância de falar em profundidade sobre a experiência intersexo e a relativa falta de documentários sobre o assunto, D’Avilla diz que, dentro da comunidade, “muitas pessoas não estão realmente preparadas para se assumirem publicamente como intersexo”. “Há também muita confusão entre ser intersexo e ser transgénero, quando são experiências muito diferentes. Penso que esta falta de compreensão pública contribuiu para que menos histórias fossem contadas.”

Sobre isso, o diretor diz que é “muito importante” exibir o filme nos EUA, “especialmente tendo em conta os atuais desafios políticos que afetam os direitos LGBTQIA+”. “A comunidade LGBTQIA+ está ameaçada neste momento nos EUA. Seus direitos estão sendo retirados. É muito urgente trazer luz a esse assunto, naquele país, para se rebelar contra o que está acontecendo e tentar conscientizar mais educadores, políticos, médicos e a sociedade em geral.”

“Let Us Be” é uma coprodução EUA-Brasil entre Dona Rosa e Social Construct Films, uma decisão que veio no início do processo de financiamento, quando os produtores decidiram se candidatar a um fundo de coprodução internacional. Parcerias como essa estão se tornando cada vez mais comuns no Brasil, um país atualmente sob as luzes brilhantes da atenção internacional graças a dois anos consecutivos de sucesso com “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, e “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho.

“Esse tipo de produção internacional [model] é muito interessante, principalmente para filmes independentes”, acrescenta o diretor. “No Brasil, ainda lutamos muito com financiamento e nossas possibilidades de desenvolver e produzir projetos podem ser limitadas. Portanto, trabalhar em diferentes países e com diferentes parceiros pode realmente expandir as nossas possibilidades de forma criativa, financeira e em termos de alcance. Permite que o filme viaje mais longe, entre em novas conversas e seja visto por diferentes públicos. Ao mesmo tempo, acho muito importante não perder a identidade de onde vem o filme. Mesmo quando um projeto se torna internacional, ele ainda precisa carregar a cultura, a perspectiva e a assinatura do seu diretor. Para mim esse equilíbrio é essencial, abrir o filme ao mundo sem perder as raízes.”

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