A equipe de elenco de “Pluribus” de Vince Gilligan procurou pelo mundo o ator que pudesse interpretar o personagem principal de Zosia. A alienígena “mente coletiva” envia Zosia para trabalhar com a resistente e rebelde Carol (Rhea Seehorn) e deve ser linda, inteligente, calma e paciente. É uma tarefa difícil e, quando não conseguiram encontrá-la, voltaram ao gabinete.
A equipe de elenco por trás de todas as séries da Gilligan, de “Breaking Bad” a “Better Call Saul”, mantém um arquivo físico de notas manuscritas de cada ator que já fez o teste para eles. Meses depois de caçada, com seus outros recursos esgotados, o diretor de elenco Russell Scott pegou uma pasta antiga e começou a folheá-la – parando em Karolina Wydra. “Ele viu minha foto e disse: ‘Vamos vê-la. O que aconteceu com ela?'”, lembra Wydra. Depois de dar à luz seu filho Atticus durante a pandemia, a atriz nascida na Polônia, conhecida pelos fãs do gênero “True Blood” da HBO e “Agents of SHIELD” da Marvel, deixou de ser uma mãe que fica em casa. Sua representação a abandonou e ela teve seu segundo filho. Quando ela se sentiu pronta para voltar ao trabalho, aos 42 anos, ela não tinha agente, nem gerente, nem ideia de como voltar à sala. Então chegou um pedido de audição por meio de uma antiga agência comercial que ainda a tinha em sua lista. “Acabei de ver que era Vince Gilligan, da Apple TV, e literalmente meu corpo entrou em choque total”, diz Wydra. “Eu não ia fazer isso. E então há aquela outra voz dentro de mim que disse: ‘Experimente. Você não tem nada a perder.'”
Alerta de spoiler, ela conseguiu o papel. E depois de mais de uma década lutando contra a percepção que Hollywood tinha dela como uma femme fatale, Wydra emergiu como o ponto de partida de “Pluribus”, o drama de ficção científica de Gilligan, no qual a enigmática Zosia de Wydra serve como o único ponto de contato entre Carol de Seehorn e o resto da humanidade, que está conectada por uma única consciência. Carol está entre as 13 pessoas na Terra que não estão infectadas pela mente coletiva. Wydra diz: “Sempre quis ser ótimo atuando. Nunca foi uma questão de fama”. E agora ela está entre os nomes notáveis na disputa por uma indicação ao Emmy de atriz coadjuvante em drama.
A síndrome do Impostor persistiu mesmo depois que ela conseguiu o papel. Wydra se lembra de um dia no set, quando ela estava nervosa, tentando encontrar o personagem, e Gilligan olhou para ela entre as tomadas. “Ele disse: ‘Você pertence a este lugar’”. Era a afirmação que todo artista busca, especialmente quando sente que não necessariamente pertence.
AppleTV+; HBO; Mitch Haaseth/ABC via Getty Images
Nascida na Polónia, Wydra imigrou para os Estados Unidos em 1992, aos 11 anos, após a queda do comunismo. Sua família se estabeleceu em Costa Mesa, longe de Hollywood, apesar da relativa proximidade. “Meus pais queriam que eu tivesse um emprego estável”, diz ela. “Ser ator não era algo que fosse cultivado.” A modelagem a encontrou primeiro e a atuação veio depois, depois de anos alimentando secretamente ambições inspiradas em autores europeus como Andrei Tarkovsky, Luis Buñuel e Federico Fellini. Ela mergulhou na cena cinematográfica independente de Nova York, assombrando teatros como o Angelika e o Film Forum antes de finalmente seguir atuando profissionalmente aos 20 e poucos anos. Mesmo assim, libertar-se da tipografia revelou-se difícil. “Você é facilmente colocado em uma caixa”, explica ela. “As pessoas dizem: ‘Você é muito bonita, não consegue esse papel’”.
A exceção, ela lembra, foi David Lynch, que a escalou para o revival de “Twin Peaks” em 2017. “Foi a primeira vez que alguém me pegou e me deixou realmente preso”, diz Wydra. “Ele pintou meus dentes, me tornou viciada em drogas e tirou todas as coisas que sempre pintei para ficar bonita.”
No set de “Pluribus”, ela encontrou um refúgio criativo semelhante com Seehorn, a quem ela descreve como um dos artistas mais esforçados que já encontrou. Os dois ensaiavam cenas juntos nos finais de semana e se uniam em um ritual diário no set, comendo um donut simples, dividido entre eles. “Ela não gosta de nada dentro de alguma coisa”, diz Wydra, rindo. “Ela se recusa.” Eventualmente, Seehorn disse a Gilligan que ela também queria a outra metade. “Então, no próximo ano vamos lutar por donuts”, diz Wydra.
O ponto principal é a ética de trabalho. “Ela leva isso a sério. Ela conhece todas as nuances de sua personagem”, diz Wydra sobre Seehorn. “Vince lhe dará um bilhete, e às vezes eu posso não entender o bilhete, mas ela o executaria assim.”
A série também representa a prova de que a longa jornada não linear de Wydra valeu a pena. “Estou vivendo além dos meus sonhos mais loucos”, diz ela. “Posso trabalhar com Vince Gilligan, que não é apenas um artista brilhante, mas um ser humano incrível.”
No entanto, ela também permanece profundamente reflexiva sobre esta época nos EUA, especialmente como uma imigrante que cresceu acreditando na promessa do país. “Meus pais viveram o sonho americano”, declara ela. “Eles vieram para cá, compraram uma casa e construíram uma vida excelente. Observar o que está acontecendo neste país agora é de partir o coração.”
Ela se lembra de estar em Nova York na noite em que Barack Obama foi eleito presidente em 2008. “A cidade inteira ficou em silêncio quando ele falou. Todo mundo se reuniu e você se sentiu como um só. Parecia que o sonho americano estava vivo”, diz ela. Ela sente falta daquela época.
Mas, por enquanto, Wydra está focada no trabalho. Ela voltou às aulas de atuação recentemente, enquanto a segunda temporada está sendo escrita; ela não leu uma única palavra sobre isso. Ela fez cursos de improvisação e quer atuar no teatro no futuro.
“A síndrome do impostor? Talvez o presente nisso seja que eu nunca vou me contentar.”













