Capa do álbum Carry Fire

Não se deixe enganar pelos vocais calmos e quase sussurrados de The May Queen, a música que abre Carry Fire – o novo trabalho solo de Robert Plant. Aos 69 anos de idade, um dos maiores veteranos do rock sabe que não faz sentido tentar sair berrando por aí como se o tempo não tivesse passado. E é sobre a passagem do tempo – e os aprendizados que ela traz – que Plant canta aqui.

Seria até meio ridículo tentar emular o Plant de 45 anos atrás. Sua bagagem hoje é totalmente diferente do que era nos dias gloriosos do Led Zeppelin. Por outro lado, também seria espúrio ignorar sua própria trajetória e fazer um disco totalmente desconexo das suas raízes.

Esse equilíbrio transforma Carry Fire num dos trabalhos solos mais ricos de Plant, bem puxado para o folk, recheado de percussões e ritmos africanos e por vezes até efeitos eletrônicos, com muito mais foco e boas ideias.

O disco é bastante melancólico e esbanja um sabor refinado de um artista que tem muito pouco para se preocupar e muito para compartilhar. É quase uma conversa onde ele divide com a gente importantes experiências de sua maturidade, como um grande desabafo. Novamente na companhia dos Sensational Space Shifters, Plant discute sobre a mortalidade em Season’s Song, compreendendo que apesar dos limites do corpo a mente nunca para.

A energética New World abusa das guitarras e é um dos pontos altos do álbum, onde ele canta com vigor sem se comprometer com nenhuma tentativa de emular a si mesmo, e é exatamente por isso que a faixa funciona. A faixa tem o espírito do Led Zeppelin e descreve um mundo fantástico de aventuras, mas do ponto de vista de um senhor experiente que sabe que, apesar de já ter vivido de tudo, sempre está aberto a descobrir o que vem por aí.

Bones Of Saint e A Way With Words são bons exemplos que representam a atmosfera do disco: as faixas oscilam entre a reflexão e o impulso, entre aceitar o envelhecimento e ser feliz com ele e o instinto de nunca deixar a chama se apagar. E Carry Fire tem tudo a ver com esse dilema.

Não é novidade para ninguém o misticismo presente na obra de Plant, que continua presente aqui. Talvez a diferença seja a intensidade com que ele mescla o velho com o novo ou como as paisagens sonoras se expandem e ficam mais dramáticas. Seja como for, é notável a percepção de como a banda se preocupa mais com o atmosfera do que com as notas e a execução em si.

Tudo para criar um cenário propício para as mensagens espirituais dele, que faz questão de se auto referenciar. A frase “the may queen” aparece lá atrás, na letra de ‘Stairway To Heaven’, e se mescla com o novo aqui no primeiro single de Carry Fire. É Robert Plant em sua constante jornada de (re)descobertas, celebrando o presente e respeitando o passado. Que bom que ainda existem ícones se preocupando em manter-se relevantes.

Ouça o álbum completo:

Nota:
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Nasci no dia 11 de novembro de 1995 e hoje moro no litoral catarinense, onde também curso Jornalismo na Univali. Além de ser o fundador e idealizador da Q Stage, o qual me dedico desde 2014, sou músico e também trabalho em um Laboratório de Inovação Tecnológica.