Como expliquei na primeira matéria da série “Rebeldes da era digital”, o Cyberpunk é um movimento literário e é importante lembrar disso quando transpomos seus valores à outras mídias. Quando se fala em música, vale lembrar que não existe uma definição clara de como classificar o que é, e o que não é música cyberpunk. O que é possível, é identificar algumas características dos movimentos musicais que se assemelham a elementos dessa distopia futurista. Outra maneira, é quando o artista se declara influenciado pelo movimento literário e faz composições em sua homenagem.

Tem músicas influenciadas pelo movimento cyberpunk que não se limitam apenas na inspiração causada pelas obras literárias. As influências também podem vir de outras fontes, como: moda, filmes, quadrinhos e jogos, assim como de questões sociais, políticas, arriscando até a dizer filosóficas; além é claro, da cibercultura e dos avanços tecnológicos. A união desses diversos tipos de expressões, criaram aquilo que conhecemos hoje como a cultura cyberpunk.

Todas essas formas de mídia se influenciam constantemente, fazendo a música se moldar conforme as mudanças acontecem no cenário. Alguns filmes de ficção tem embalado canções que foram submetidas ao título de cyberpunk. Não existe um padrão para suas composições, elas acompanham o ritmo e a ambientação dos filmes, como no caso de Blade Runner. A mistura de música orquestrada com música eletrônica de sua trilha sonora, é por muitas vezes arrastada e melancólica, se encaixando perfeitamente na proposta do filme, levando o espectador às reflexões desejadas.

Muitos outros filmes trouxeram canções que conseguiram fazer a caracterização do cyberpunk de forma completamente diferente, com músicas dançantes e/ou agitadas. É claro que comparar trilhas sonoras não é um argumento, apenas uma observação de como a música pode ser representada dentro do universo cyberpunk. Acredito que Matrix foi o filme que melhor se desenvolveu nesse aspecto. Uma pequena pesquisa pode revelar a quantidade de artistas utilizados para se chegar ao resultado de sua fabulosa trilha sonora. Entre eles, nomes como Rob Dougan, Juno Reactor, The Prodigy, Rob Zombie e Rage Against The Machine.

Um exemplo mais recente é o filme Chappie, que traz a dupla de músicos do Die Antwoord como atores. Interessante notar como a banda surge representando uma nova onda para rotulação de música cyberpunk, ao mesmo tempo que a banda se diz representante de um movimento de contra cultura (Zef), exatamente como o cyberpunk podia ser visto em seu início, quebrando os paradigmas da literatura sci-fi clássica.

Deixando de lado a influência de filmes na concepção de rotulação musical, temos o surgimento de bandas influenciadas diretamente pela cultura cyberpunk. A exemplo de Front Line Assembly, Grendel, Fear FactoryClock DVA e Skinny Puppy. Isso ocorre a diversos fatores, que vão desde os temas abordados nas letras, até a agressividade da maneira de se expressar com o uso de tecnologias de composição eletrônica, que remete ao ambiente transmitido quando se imagina ações de hackers em um ciberespaço.

Combichrist é uma banda que consegue trazer facilmente os elementos dessa cultura underground através de suas canções, que abordam situações onde é fácil inserir um clássico personagem de cyberpunk. Além é claro, de sua sonoridade alternativa e [alguns] de seus video clips. Bastando juntar a mensagem da música com o vídeo para sentir essa ambientação.

Em alguns casos, a influência declarada faz a rotulação de cyberpunk ficar claramente reconhecida. O caso mais marcante, acredito ser o da banda irlandesa U2. Quando compuseram algumas faixas abordando o impacto da tecnologia na vida humana, Bono Vox diz que se inspirou na literatura de William Gibson, dessa forma, o álbum Zooropa, de 1993, tornou-se uma uma referência a música cyberpunk.

Nesse caso em específico acredito que houve uma supervalorização dessa rotulação, pois o U2 é uma banda de gosto popular, então qualquer atitude pequena ganha grandes proporções. Também pelo motivo da maioria das faixas não tocarem em temas relativos ao cyberpunk, enquanto algumas poucas o fazem de maneira superficial. Assim, supervalorizando o álbum como algo que ele não tem profundidade suficiente para representar. Não que isso torne a música ruim ou estrague o trabalho da banda, mas ouvir suas músicas sem ter esse conhecimento prévio, dificilmente vai levar o ouvinte a associação do tema proposto pela banda.

Vale ainda dizer, que Bono Vox é novamente associado ao cyberpunk, quando aparece em um documentário ao lado de Gibson e Bruce Sterling, em No Maps for These Territories (2000), o que comprova ainda mais seu interesse pelo assunto.

Outro artista que embarcou nessa onda para desenvolver um álbum totalmente voltado ao subgênero, foi Billy Idol. Seu álbum conceitual intitulado Cyberpunk, lançado em 1993, foi uma grande declaração como fã dessa literatura, que o fez mergulhar profundamente em pesquisas sobre a cultura cyberpunk durante a produção do álbum.

Para a época, o resultado foi muito inesperado, gerando críticas negativas sobre seu trabalho. Mas para os fãs do movimento, o efeito foi contrário e o álbum se estabeleceu como um clássico para eles.

O cyberpunk encontrou na música eletrônica alternativa seu maior potencial. Apesar de muitas bandas não conseguirem ser lançadas ao grande público com a facilidade do U2 ou Billy Idol, é entre elas que se encontram os trabalhos com mais profundidade de temas. Essa facilidade da música eletrônica em conversar com o cyberpunk, é bem interessante, mas infelizmente poucos artigos tratam desse assunto. Assim como em outros tipos de ficção científica, o som eletrônico consegue representar com facilidade ambientes futuristas e cercados de tecnologia.

A própria música eletrônica representa um avanço tecnológico para a composição musical, e tecnologia é sempre um ponto importante para esse tipo de ficção. O uso de sintetizadores permitiu o surgimento de diversos gêneros musicais novos. Em muitos desses movimentos, encontram-se inclinações às influências do cyberpunk ou indicam ter tendências a temas futuristas, tais como: neurofunk, ebm, dubstep, industrial, futurepop, aggrotech e outros.

Kraftwerk pode ser considerada a banda precursora de toda essa música eletrônica voltada a cibercultura, merecendo os créditos pela sua influência na música do século XX de forma geral.

Se o lado tecnológico do cyberpunk parece ter sua representação por meio de música eletrônica, o que dizer do lado social? Todos aqueles personagens marginalizados, cidades entupidas e um sistema injusto e exploratório, são facilmente encontrados no punk/rock, com seus temas de subversão ao sistema, niilismo, marginalização e contra cultura.

Essa ampla gama de gêneros musicais e a maneira como são relacionados ao cyberpunk, demonstram o quão profundas são suas raízes na sociedade moderna. Ficando evidente que todos produtos que compartilhem dessa mesma abordagem, também fará parte dessa ampla esfera cultural. Apesar de não ser um estilo musical, o cyberpunk influenciou de forma direta e indireta a música dos últimos 30 anos.

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