Sol torrencial, muito calor, uma paixão imensurável e dezenas de pessoas vestidas de preto. Assim era composta a fila daqueles que aguardavam ansiosamente pela chegada do U2. Uma quantidade exorbitante de vendedores ambulantes e cambistas se misturava ao número de fãs. A criatividade não faltou por aqui: itens como sombrinha, bonés e até a bolacha “Bono” eram vendidos ao redor do estádio.

Durante a espera, houve momentos emocionantes e de colaboração. Como não era permitida a entrada de objetos pontiagudos, as sombrinhas utilizadas para a proteção do sol logo seriam descartadas. Foi pensando nisso que a vontade de ajudar dos fãs falou mais alto. Pouco antes da abertura dos portões, essas mesmas sombrinhas foram doadas para uma senhora de aparência triste e em situação de miséria que passava por ali, para que ela pudesse vender em uma outra oportunidade. Também foram doados alimentos à um outro senhor de que estava em uma situação parecida.

Após 7 anos sem vir ao país, o U2 retorna de maneira triunfal. Com ingressos esgotados em apenas 2 horas e com a abertura de vários shows extras, totalizando 4 apresentações. Na quinta-feira, a banda irlandesa incendiou o Morumbi.

Com uma estrutura de palco gigante e um telão com tecnologia nunca vistos antes, a banda entoou os primeiros versos de ‘Sunday Bloody Sunday’ levando o público à loucura. O feito foi repetido pelas músicas seguintes, como ‘New Year’s Day’, ‘Bad’, ‘Pride’ e ‘With or Without You’. Sem se deixar intimidar pela árvore gigante que há no palco e com a sua “sombra” como palco secundário, o quarteto manteve a mesma energia e o ativismo de 30 anos atrás, quando lançavam o álbum que deu nome e motivo a turnê: The Joshua Tree.

Já no início da apresentação, o vocalista arriscou algumas palavras em português, gerando conexão e empatia com a multidão. “Muito obrigado, Brasil”, disse em português. “Quando a gente realmente quer alguma coisa o universo conspira. Queríamos tanto estar com vocês está noite… Vai ser uma noite épica”, continuou já em inglês. O público reagia a ambas falas de igual maneira, sem se deixar intimidar pelo idioma.

No segundo ato, que conta agora com o telão já aceso, foi apresentado na íntegra o álbum The Joshua Tree. O disco contém diversos hits que foram grande sucesso durante a carreira da banda, como ‘Where the streets have no name’ e ‘I still haven’t found what I’m looking for’, que foram cantadas a bravos pulmões no estádio. A emoção dos fãs que estavam ali era contagiante, mesmo a faixa etária dos mesmos não sendo tão jovem assim.

Os fãs acompanharam pela primeira vez a performance da música ‘Red Hill Mining Town’. “Bem-vindo ao lado B do The Joshua Tree”, anunciava Bono antes de cantar ‘In God’s Country’ e ‘Trip Through Your Wires’, invadindo o estádio com o som de sua gaita.

A projeção do telão foi algo a parte. Durante a espera dos shows e intervalos, o telão exibiu diversos poemas que levavam à reflexão sobre o ser humano, sobre os valores e sobre a beleza do existir. Destaque para a autora Elisabeth Alexander, que teve vários poemas sua obra exibidos no telão. Alguns dos poemas apresentados eram em espanhol também. Ao decorrer da apresentação, o aparato tecnológico ilustrou as canções com imagens cuidadosamente escolhidas, como as que remetem à guerras ou ao patriotismo americano, interpretado por uma mulher pintando um casebre com três bandeiras em vermelho, azul e branco.

Fugindo da tarefa de apenas auxiliar a visão dos fãs mais afastados, o telão também reforçou um nacionalismo brasileiro outrora escondido. Ao lidar com assuntos sobre a importância da mulher, o quarteto exibiu imagens de “mulheres estupendas”, como dito por Bono no mais carregado português. Dentre elas estavam Tarsila do Amaral, Maria da Penha e Taís Araújo, arrancando aplausos e gritos dos presentes. Chamado de “Herstory”, a transição mostrou ainda Eva Péron, Michele Obama e Elen Degeneres, ao som de “UltraViolet (Light my way)”.

Ainda no tom político, a outra surpresa foi a camisa do baterista Larry Mullen Jr, com os dizeres “Censura Nunca Mais”, gerando mais gritaria e aplausos. A banda encerrou suas performances num misto de hits mais antigos e outros novos, dentre eles ‘Best thing about me’,’Beautiful Day’, ‘Elevation’, ‘Vertigo’ e ‘One’, que trouxe a mensagem de unidade e foi acrescida de apoio e reflexão à causa LGBT e elogios ao país ter alternativas como remédio gratuito à população, findando numa enorme bandeira do Brasil e fãs já em Nostalgia.

Além do U2

O show teve a abertura do ex-Oasis Noel Gallagher, que cantou os sucessos da dupla e os hits do álbum lançado no último dia 25, High Fliying Birds. Com uma hora de duração, o show animou o público, mas não o suficiente, porque a espera pelo U2 era maior.

Em termos de organização e estrutura, a confusão que se deu na compra dos ingressos, se repetiu no local. Fãs acomodados há uma semana antes do evento na porta do local, passaram a ‘vender’ seus lugares e uma “comissão de fila” chegou a ser montada em grupos de discussão no Facebook, para averiguar tais práticas. Dentro do estádio, os preços de bebidas, alimentação e souvenirs eram salgados, assim como o valor dos ingressos que chegaram a custar R$1.250. Mas nada disto pareceu ter muita importância no momento. Na saída, o envolto do Morumbi parecia ter sido inundado por um mar de gente, o que gerou demora na locomoção de alguns.

A banda continua sua série de apresentações no país na próxima quarta, 25.

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