Entrando em sua sexta parte, JoJo no Kimyou na Bouken novamente entra em territórios não explorados pela narrativa de Hirohiko Araki. Após um capítulo de mistérios na pacata cidade de Morioh e uma inesperada viagem a Itália e uma trama sobre mafiosos, Araki volta ao feudo de sangue entre os Joestar e o finado Dio Brando. Publicada na Weekly Shonen Jump entre 2000 e 2003, Stone Ocean (originalmente, A Aventura Bizarra de Jojo Parte 6: Jolyne Cujoh: Stone Ocean) nos leva a um ambiente inesperado: o interior da ala feminina de um presídio.

Escrita em parte como um mea culpa por sua única outra obra com uma protagonista feminina, o escabroso mangá de assassinos Gorgeous Irene, publicado em 1984, Stone Ocean traz a primeira – e até o momento, única – mulher a levar o título de JoJo: Jolyne Cujoh, filha de Jotaro e uma mulher italiana. Em 2011, Jolyne é acusada de um crime que não cometeu e sentenciada ao presídio de segurança máxima da rua Green Dolphin. Sem que ela saiba, sua condenação é parte de um plano póstumo do nemesis de sua família, Dio Brando.

Sob a condução do capelão do presídio, Enricco Pucci, os últimos remanescentes do culto de DIO visam criar seu novo mundo – custe o que custar. Com 158 capítulos em 17 volumes, do capítulo 595 ao 752, essa foi a última parte a ser integralmente publicada na Weekly Shonen Jump – e efetivamente encerra a história de JoJo: o arco seguinte, Steel Ball Run, nos traria uma realidade nova, que pode ou não ter surgido dos eventos de Stone Ocean.

Conceitos e personagens

1O ritual de ascensão de DIO

Um ritual detalhado nos diários perdidos de DIO, para trazer “o céu ao mundo”. Pucci esperava que o ritual fosse ressuscitar DIO, mas o resultado foi muito, muito diferente. Envolvendo um osso de DIO, as almas de 36 pecadores, 14 frases sagradas (em ordem: Escada em espiral; Besouro rinoceronte; Rua das ruínas; Torta de figo; Besouro rinoceronte; Via dolorosa; Besouro rinoceronte; Ponto de singularidade; Giotto; Anjo; Hydrangea; Besouro rinoceronte; Ponto de singularidade e Imperador secreto), e um conjunto de coordenadas a serem visitadas “na lua nova”, o ritual é a força motriz por trás dos eventos de Stone Ocean – e do fim do mundo.

O ritual tinha de ser implementado por um “amigo de confiança”, pois para esse fim, DIO teria que destruir seu Stand temporariamente (se destruindo no processo). Como DIO chegou a conclusão de que essa sequência de ações trará “o paraíso” é um mistério – que não é explicado pelo livro Over Heaven, de Nision Isin e Araki, publicado em 2011 como parte das comemorações dos 25 anos de JoJo.

2Jolyne Cujoh – Stand: Stone Free

A primeira – e até o momento, única – mulher a protagonizar JoJo, Jolyne Cujoh começa a história como uma longa desconstrução de seus antecessores. As mesmas características que faziam de seu pai uma figura “heróica” são nela fonte de problemas. Como todos os JoJos salvo Jonathan, Jolyne cresceu com uma figura paterna ausente; enquanto seus antepassados buscaram outras fontes de inspiração, Jolyne buscou atenção em todos os lugares errados. Seu temperamento explosivo, sua determinação e sua impulsividade lhe rendem muitos problemas com autoridades – e quando ela e o namorado, o playboy Romeo Jisso, atropelam um pedestre, a combinação desses fatores a leva a uma sentença da qual seu pai não se dispõe a safá-la. É só depois de descobrir que o aparente abandono do pai ao longo de sua vida era para protegê-la dos inimigos da família – e experimentar o mesmo tipo de perda que

Seu Stand, Stone Free, permite que ela se “desfie”, convertendo parte (ou todo) o seu corpo em fios extremamente resistentes. Assim como o Stand do pai e o do tio avô, Stone Free é um Stand de curto alcance capaz de dar golpes extremamente poderosos; diferente destes, pode aumentar seu alcance às custas de força desfiando seus membros.

3Ermes Costello – Stand: Kiss

Teimosa, obstinada e orgulhosa, Ermes é o peso-pesado de Stone Ocean, o músculo do nosso grupo de heróis. Ermes alega ter sido presa por roubar uma loja de conveniência, parte de um plano calculado para colocá-la na mesma prisão que o assassino de sua irmã, o gangster Sports Maxx – um dos muitos sinais de sua tendência a fazer coisas idiotas por não pensar nas consequências além do resultado desejado e de não pensar em soluções mais simples (como testemunhar contra Sports Maxx).

Seu Stand, Kiss – obtido depois de se cortar com um amuleto roubado de Jolyne –  pode colocar “adesivos” duplicadores nas coisas, gerando cópias delas. Com força e velocidade consideráveis, seu maior poder está no que acontece quando os adesivos são removidos, forçando a violenta união das duas partes não importa o quão longe estejam.

4Narciso Anasui – Stand: Diver Down

Um cross dresser em detenção na ala de segurança máxima de Green Dolphin, Narciso Anasui é… estranho. Possessivo, violento e ciumento, Anasui foi preso pela morte de sua namorada e do amante dela; flagrados por ele na cama, Anasui os esquartejou para que nunca mais ficassem juntos. Ao mesmo tempo, Anasui é extremamente leal e altruísta – e completamente, perdidamente apaixonado por Jolyne. Suas tentativas de conquistar sua atenção são a maior fonte de alívio cômico em Stone Ocean – por bem ou por mal.

Seu Stand, Diver Down, reflete sua obsessão em desmontar e remontar coisas permitindo que ele mergulhe dentro de corpos e materiais e reorganize sua estrutura à sua vontade, fazendo coisas como transformar as costelas de alguém em uma armadilha para ursos.

5Emporio Alniño – Stand: Burning Down the House

Um garoto nascido e crescido no interior do presídio de segurança máxima da Rua Green Dolphin, Emporio Alniño teve que se virar para sobreviver em meio aos guardas e presidiários sem ser detectado – tarefa possível graças ao seu Stand, Burning Down the House – uma dimensão de bolso que replica a memória de lugares e objetos, assumindo a forma da antiga sala de música do presídio. Tímido, Empório é arrastado para o feudo dos Joestar e repetidas vezes ajuda Jolyne com seu Stand e seus conhecimentos de informática para decifrar os Stands do inimigo.

6Weather Report – Stand: Weather Report/Heavy Weather

Um homem misterioso e excêntrico com amnésia, detido por um crime desconhecido, Weather Report é o último membro do grupo de heróis a ser introduzido. Confiável e inocente, Weather Report é apresentado inicialmente como “aquilo que mantém Anasui sob controle”.

Seu Stand, o homônimo Weather Report, pode controlar condições climáticas e meteorológicas, criando até fenômenos improváveis como chuvas de sapos venenosos e tempestades elétricas localizadas. Além disso, seu Stand pode controlar os ventos na forma de barreiras e rajadas eólicas.

Weather Report é na verdade Domenico Pucci, o irmão gêmeo de Pucci, separado na infância. Vítima de supremacistas brancos acidentalmente contratados pelo irmão, Domenico desenvolveu sadismo e um ódio intenso pela humanidade, manifesto na forma do poder maior de seu Stand, Heavy Weather, criando um efeito na camada de ozônio que leva as pessoas a pensarem que estão virando caracóis – ou que faz elas virarem caracóis, não é claro. Para poupar o mundo e o irmão, Pucci retirou suas memórias (não seria melhor tirar o Stand não?)

O corpo provisório e…

7F.F – Stand: Foo Fighters

Uma colônia de plâncton dotada de um Stand – ou talvez um Stand controlando uma colônia de plâncton – que se tornou senciente quando Pucci jogou um disco de Stand no oceano para criar algo que protegesse sua coleção de discos de Stands. Inicialmente apática e desinteressada no mundo, F.F. desenvolve uma ligação intensa com Jolyne, a quem é grata por dar-lhe a liberdade.

O Stand em si

Seu Stand (ou sua consciência), Foo Fighters, pode usar da colônia de Plâncton para curar ferimentos, disparar projéteis ou se dividir em “sub-corpos” para realizar várias ações ao mesmo tempo. Como uma colônia de plâncton, Foo Fighters depende de um suprimento constante de água, coisa que pode ser evitada tomando um corpo “emprestado” – como faz com a falecida detenta Atroe.

8Jotaro Kujo – Stand: Star Platinum

Jotaro retorna ao primeiro plano após sua ausência quase completa em Vento Aureo, revelando-se um pai tão ausente quanto Sadao Kujo – se não mais. Viajando pelo mundo a trabalho ou a serviço da fundação Speedwagon durante a maior parte da juventude de Jolyne (para o bem dela), Jotaro tem uma relação turbulenta com a filha, tão delinquente e rebelde quanto ele. Jotaro acaba sendo uma parte essencial dos planos de Pucci, como o único a ler o diário de DIO antes de sua destruição em 1989.

9Johngalli A – Stand: Manhattan Transfer

Um assassino cego e seguidor leal de DIO, Johngalli A foi o responsável pela morte do pedestre que Jolyne e Romeo pensaram ter atropelado – e pelo advogado corrupto que sugeriu o acordo que levou Jolyne a prisão. Vingativo, Johngalli não deseja nada além do sofrimento do homem que matou seu mestre, usando de seu Stand, Manhattan Transfer, para caçar Jolyne e Jotaro com extrema precisão. Manhattan Transfer usa das correntes de ar para fazer o papel da visão de Johngalli – e de seu corpo para guiar balas por curvas e quinas.

10O Bebê Verde – Stand: Green, Green Grass of Home

Fruto da primeira metade do ritual de DIO, o Bebê verde é um bizarro homúnculo gerado a partir do osso de DIO e da alma de 36 pecadores. Apesar da aparência bizarra e do perigo que a criatura representa para o mundo, o Bebê verde age como uma criança normal, demonstrando curiosidade pelo mundo a sua volta – isso é, até ouvir as 14 frases sagradas. Seu Stand, Green, Green Grass of Home, o protege fazendo com que qualquer um que tente se aproximar contra a sua vontade encolha indefinidamente.

11Sports Maxx – Stand: Limp Bizkit

Um gângster e vendedor de carros usados, Sports Maxx foi responsável pela morte da irmã de Ermes, testemunha de um dos seus crimes. Apesar de seus múltiplos crimes violentos, é evasão fiscal que o leva à Green Dolphin, onde se torna parte do complô de Pucci. Um homem violento e arrogante fora da prisão, no cárcere Maxx se porta como um cavalheiro educado e cordial, dedicando seu tempo a hobbies como taxidermia.

Puro combustível de pesadelos

Seu Stand, Limp Bizkit, permite que ele reanime os mortos na forma de zumbis invisíveis e super fortes, capazes de andar nas paredes. Pucci usou de sua habilidade em uma tentativa de reanimar DIO, com resultados desastrosos; Não bastasse esse poder aterrador, Limp Bizkit se mantém ativo após a morte de Maxx, reanimando o gangster como um morto-vivo sedento de sangue.  

12Guccio – Stand: Survivor

Um homem covarde e tímido detido em isolamento devido à série de brigas violentas que tendem a ocorrer por perto dele (sempre sem culpa dele – e isso não é desculpa dele: simplesmente, as pessoas tendem a ser violentas com ele por perto). Guccio é um de quatro assassinos usados por Pucci na tentativa de eliminar Jolyne e escapar com o bebê verde, dotando o de um Stand, o incontrolável Survivor – uma extensão da tendência de Guccio a causar brigas, levando as pessoas à sua volta a acessos homicidas de violência. Embora seja o mais breve e mais fraco dos quatro, Guccio é a peça chave no plano de fuga do sacerdote.

Ungalo: quase tão feio…

13Ungalo – Stand: Bohemian Rhapsody

Um dos filhos de DIO, dotado do sadismo e a misantropia do pai. Viciado, violento e facilmente irritado, Ungalo vive para fugir de sua vida miserável – obsessão refletida por seu seu Stand, Bohemian Rhapsody, trazendo personagens de histórias a vida e forçando seus alvos a reviverem o papel dos personagens com o qual mais se identificam.

Quanto os frutos de seu Stand…
Rikiel e seus bastões voadores

14Rikiel – Stand: Sky High

O mais pacato e inseguro dos filhos de DIO, um jovem azarado e infeliz que segue Pucci não por ambição pessoal, mas por gratidão depois que o padre o ensinou a controlar seu Stand e a fonte de sua má sorte. Do pai, Rikiel herda o espírito indomável e seu olhar para “oponentes dignos”. O menos vilanesco do trio de filhos de DIO em Stone Ocean, Rikiel tem grande estima pelas realizações da humanidade e se mostra um jovem honrado, congratulando Jolyne por sua vitória contra ele. Sky High, seu Stand, controla criaturas misteriosas chamadas “bastões voadores” que sugam calor corporal e deixam suas vítimas enfraquecidas.

15Donatello Versus – Stand: Under World

Um dos filhos de DIO, e dos quatro, o mais parecido com o pai.  Egoísta e impiedoso, Donatello se sente injustiçado pelo mundo e busca acima de tudo “a felicidade”, coisa que o leva a tomar parte dos planos de Pucci. Como o pai, Donatello teve uma infância sofrida – não apenas por conta do padrasto abusivo e mulherengo, mas também por conta de seu Stand, Underworld, que permite que ele reviva as memórias dos terrenos da Florida, trancando seus alvos em reproduções de eventos passados – e de uma condenação injusta que o sujeitou, aos treze anos, a quatro meses de abusos em uma prisão.  

O confidente de DIO

16Enricco Pucci – Stand: Whitesnake/C-Moon/Made in Heaven

Até aqui, todos os vilões de JoJo foram “obviamente malignos”; tivemos um megalomaníaco com tendências sociopáticas, um paranóico homicida, um serial killer misógino e anti-social e o Kars. Como muita coisa em Stone Ocean, Pucci quebra os padrões da série, sendo um homem cordial e gentil que deseja mais do que tudo “trazer o céu à Terra”. Atuando como capelão na penitenciária da rua Green Dolphin, Pucci visa terminar o que seu amado DIO começou e criar “um novo mundo”.

Provando que não há nada que a KKK não possa PIORAR

Pucci tem seu lado sombrio, no entanto, fruto de sua visão fatalista do mundo e sua tendência a ver todos como ferramentas para o seu grande plano. Seus impulsos mais violentos e misantrópicos se manifestam através de seus Stands, e só pioram após sua fusão com o Bebê Verde. Parte dessa visão é fruto de seus erros no passado, na época em que conheceu DIO. Na juventude, enquanto estudava para diminuir o sofrimento do mundo como padre, Pucci descobriu que o namorado de sua amada irmã Perla era seu irmão gêmeo. Para separar os dois, Pucci contratou um detetive particular – sem saber que este era ligado à KKK. Ao descobrir que a mãe de “Wes” havia se casado com um negro, o detetive tratou de arranjar o linchamento do casal, levando Domenico a odiar a humanidade e Perla a cometer suícidio.

Whitesnake

Com três Stands ao longo de todo o arco, Pucci leva o prêmio como o vilão com mais Stands na obra inteira. Seu Stand inicial, Whitesnake, se manifesta como um humanóide de aparência macabra, capaz de extrair as memórias e os Stands das pessoas na forma de discos. Pucci coletou centenas destes discos ao longo dos anos, transferindo Stands como ferramentas.

C-Moon…

Fundido ao Bebê Verde, Whitesnake se transforma no violento e brutal C-Moon. Sob seu efeito, Pucci se torna o “referencial” de gravidade em um raio de três quilômetros, afastando tudo de si à sua vontade. Não bastando isso, C-Moon é capaz de virar qualquer coisa do avesso com um toque, fazendo com que as coisas se dobrem sobre si mesmas. E como um reflexo do que estaria por vir, o Stand faz com que o tempo aleatoriamente acelere à sua volta.  

Made in Heaven

Ao fim do ritual de ascensão, C-Moon se torna o surreal Stand centauro Made in Heaven (na publicação original, Starway to Heaven), acelerando a passagem do tempo para todos menos Pucci, que continua a se mover em tempo normal enquanto o resto do mundo vê o tempo passar enquanto age lentamente – efetivamente dando a ele o poder de parar o tempo de The World e o de cortar o tempo de King Crimson.

Uma outra face de DIO

17DIO – Stand: The World

VOCÊ PENSOU QUE EU VOLTARIA, MAS EU NÃO VOLTEI!

DIO é uma parte essencial de Stone Ocean, apesar de sua ausência. Como o grande amor e a grande inspiração de Pucci, DIO tem outra face revelada, menos misantrópica e sociopatica – embora essa face seja reflexo dos sentimentos de Pucci.

Babaca supremo

18Romeo Jisso

O ex-namorado de Jolyne, responsável por sua condenação injusta.  Antes dos eventos de Stone Ocean, Romeo e Jolyne atropelaram um pedestre. Arrogante, imprudente, irresponsável e covarde, Romeo convence Jolyne a ajudá-lo a esconder o cadáver. Quando seu crime é descoberto, Romeo suborna o advogado da namorada e joga a culpa nela para se safar da possibilidade de condenação.

Narrativa

A cobertura da narrativa de Stone Ocean será um pouco diferente da das outras partes, por conta do número de plot twists já explicados nos resumos de personagem – e o quão contida ela é.  Superando Diamond is Unbreakable como a parte de JoJo mais “fechada” em termos espaciais, a maior parte de Stone Ocean se passa dentro de um único local: O Presídio de Segurança Máxima da rua Green Dolphin, começando com a transferência de Jolyne para o presídio.

Seu tempo na prisão já não começa bem: a primeira cena de Stone Ocean é o suprassumo da vergonha alheia, com Jolyne batendo a cabeça na parede de vergonha por ter sido flagrada em um “momento íntimo” pelo “guarda que parece o Tom Cruise”.  Em Green Dolphin, Jolyne é atacada repetidas vezes por detentos e funcionários a mando do capelão da prisão, Enricco Pucci, é “convencida” a tomar parte de um plano de fuga de sua companheira de cela e recebe uma visita inesperada de seu pai.

Via flashbacks, Araki aos poucos revela os planos e a relação entre DIO e Pucci e os motivos para seus ataques contra Jolyne: atrair seu pai, Jotaro, e depois roubar seu disco de memória. Jotaro foi o único a ler o diário de DIO e com isso, o único a saber de seu profano ritual de ascensão, através do qual Pucci planeja “criar um mundo perfeito”. Estes flashbacks revelam outra face de DIO, filtrada pelos sentimentos nutridos por Pucci, seu confidante e “único amigo”. Igualmente, a relação de Jolyne e Jotaro é contada parcialmente em flashbacks de sua juventude disfuncional. Espiritualmente lobotomizado por Whitesnake, Jotaro é levado à Fundação Speedwagon enquanto sua filha luta por sua vida em Green Dolphin.

Usando o Stand de Sports Maxx, Pucci reanima um osso do dedo de DIO, criando uma peste infecciosa que converte 36 detentos em árvores. Ao mesmo tempo, para eliminar qualquer distração, Pucci dota o desagradável Guccio com o Stand Survivor, causando uma rebelião na prisão que manterá o grupo dos Joestar fora do caminho. Enquanto Jolyne opta por salvar o disco de memória do pai e tentar salvar F.F. e Anasui, Pucci se funde com o bebê verde dando origem a um novo Stand,  C-Moon.

Sem mais necessidade para seu disfarce no presídio e protegido pelas habilidades temporais e espaciais de C-Moon, Pucci segue para o próximo passo do ritual e viaja ao Centro Espacial Kennedy, esperando pela hora e a posição exata para elevar C-Moon ao seu próximo estágio: Made in Heaven.

Com a última forma de seu Stand, Pucci segue para implementar seu mundo ideal, acelerando o universo até ele dar loop para recriá-lo. Para eliminar o sofrimento, Pucci visa criar um mundo onde todos são prescientes e já sabem seu destino – assim eliminando a ideia de surpresa. Um a um, nossos heróis são derrotados, salvo por Emporio – que se vê em um novo mundo, incapaz de alterar os eventos que se repetem.

Antes que possa apagar a linhagem dos Joestar desse novo mundo, no entanto, Pucci é impedido por Emporio, agora munido do Stand Weather Report, aumentando o nível de oxigênio no interior de Burning Down the House a níveis letais – o que é ainda mais fatal para o padre louco graças a sua aceleração temporal. Emporio, o mais fraco dos nossos heróis”, acaba por salvar o mundo. Do primeiro ao último capítulo, Stone Ocean subverte os padrões narrativos de quadrinhos Shonen: não há vitória gloriosa aqui, só a sensação de finitude.

Faces familiares, porém desconhecidas…

Derrotado por sua arrogância e o Stand que fora do irmão, Pucci explode e o universo é recriado. Em um ponto de ônibus, Emporio, o único sobrevivente do universo anterior dentre nossos heróis, o único que sabe as coisas que aconteceram antes, recebe carona de um casal de namorados, Irene e Annakiss, viajando para visitar o pai de Irene e pedir a mão dela em casamento. Quando começa a chover, Irene oferece seu casaco para o menino e ele vê a marca de nascença dos Joestar em seu ombro – e assim termina nossa história: Emporio, como o leitor, guardando as memórias de um tempo que não foi, ante a personagens familiares porém desconhecidos, pegando as contrapartes de seus outros amigos no caminho…

O fim de uma era

A essa altura de JoJo, não era segredo que Araki queria sair da Shonen Jump e ir para uma revista para um público mais adulto. Os limites e os interesses do público adolescente estavam restringindo sua narrativa e, como autor, ele almejava algo mais “sério”, que lhe desse a oportunidade de explorar seus temas de forma mais aprofundada. Embora essa transição para o Seinen só fosse acontecer na parte seguinte – e no meio dela – Stone Ocean já forçava os limites do interesse de sua revista. Mangás Shonen com protagonistas femininas tendem a ser marcados por fanservice. Stone Ocean, por sua vez, foi marcado por pequenas discussões de tópicos femininos – como menstruação, sexualidade e masturbação feminina – de forma muito distante das fantasias dos garotos.

Jojo sempre teve um intenso subtexto LGBT, começando pela relação Dio-Jonathan. Vento Aureo elevou esse subtexto para texto com a dupla Squalo e Tiziano e, com menos intensidade, Bucciarati. Parte dessa representação subtextual – em especial os Homens da Pilastra e Vanilla Ice – era marcada por clichês sobre vilões homossexuais; Aya Tsuji, em Diamond is Unbreakable, passava uma aura predatória em suas interações com Yukako Yamagishi. Os Homens da Pilastra eram cercados por iconografia e ações que sugeriam depravidade. Vanilla Ice.. era Vanilla Ice.

Assim como Jolyne é um mea culpa por conta de Irene, o claramente homossexual Pucci é praticamente um mea culpa por esses clichês infelizes e não intencionais. Embora seja o mais bem sucedido e mais perigoso vilão da continuidade original de JoJo, Pucci evita o estereótipo do “homossexual depravado”. Completamente dedicado a uma causa superior, Pucci é, ao contrário de todos os outros vilões de JoJo, um homem bem humorado, atencioso e altruísta, contrariando os clichês de hedonismo associados a vilões gays. Pode se questionar o quão positivo é que sua devoção venha da paixão por um homem que se encaixa perfeitamente no clichê do bissexual depravado, mas isso é outra história.

Da mesma maneira, os aspectos negativos da caracterização de Anasui tem pouco a ver com seu status como cross dresser. Personagens travestidos não são incomuns em mangás, e geralmente são caracterizados de forma negativa como sendo afetados, promíscuos e hipersexualizados – normalmente na intenção de provocar desconforto no leitor. Os vícios de caráter de Anasui, por sua vez, são tipicamente associados com o “macho que é macho”: ele é possessivo, ciumento, violento e obsessivo.

A arte

Pela primeira vez, não há um salto considerável na arte de Araki. O traço está mais firme, mais realista e brinca menos com as proporções. As poses e as roupas continuam absurdas, como sempre foram, embora a um grau menos “espinhas quebradas” e “roupas de passarela” – embora de forma alguma sejam roupas que se veria em uma prisão.

Anasui como personagem feminina

Aqui e ali temos pequenos erros de modelo – particularmente na impressão original – com personagens saindo de seu design padrão. O caso mais notável é o de Anasui, desenhado como uma mulher em suas primeiras aparições (quando seria uma mulher chamada Anna Sui, antes de Araki decidir que faltavam personagens masculinos entre os protagonistas).

Ainda temos pessoas horrendamente feias em Stone Ocean, como tínhamos em Vento Aureo, mas com a exceção de Loccobarocco, o diretor do presídio, estas são bem mais humanas do que o quer que Carne e Polpo eram. Como resultado do desenvolvimento do traço de Araki, no entanto, há de se notar que Jotaro e DIO parecem aqui muito mais novos do que eram em 1989.

O tratamento que Araki dá aos seus personagens não muda com a mudança de gênero da protagonista. Ainda estão lá as poses fabulosas, os ângulos dignos de ensaios de moda e a composição visual high fashion que marcou o mangá até agora. Jolyne não é nem mais nem menos sexualizada que seus antecessores: Araki trata seus personagens com igualdade, algo raro na indústria do mangá.

Assim como narrativamente Stone Ocean encerra o universo inicial de JoJo, também se encerra o estilo que marcou JoJo da segunda metade de Diamond is Unbreakable até agora. O novo mundo iniciado com Steel Ball Run seria a oportunidade de mostrar um novo estilo artístico – ainda mais realista e marcado por designs mais “realisticamente excêntricos”.

Assim como Vento Aureo, Stone Ocean ainda não foi levada às telas. No entanto, Jolyne tem a honra de ser uma das poucas personagens de JoJo a protagonizar um one-shot sem se chamar Rohan Kishibe; publicado em 2013 na revista de moda Spur, Jolyne: Fly High with GUCCI, o one-shot retrata um sonho de Jolyne, usando personagens de outras partes de formas muito diferentes (Bucciaratti como um agente do governo, por exemplo) e um unicórnio fugitivo. Não oficialmente, Jolyne protagonizou o adorável fan-comic Little Jolyne Goes to Morioh, em outra linha do tempo onde Jotaro não a deixou para trás antes de ir para Morioh.  

Nossa história se encerrou, mas o mundo continua a girar. Nossos heróis se foram, mas outros estão por vir. Na próxima parte, voltamos ao final do século XIX, nos EUA, onde a maior corrida de todas está para começar e o paraplégico Jonathan “Johnny” Joestar está prestes a ter a maior lição de sua vida. É hora da Steel Ball Run!

Confira as outras partes do artigo:

  1. JoJo’s Bizarre Adventure – Phantom Blood: um dos mangás mais influentes da história
  2. JoJo parte 2: a insanidade crescente de Battle Tendency
  3. JoJo parte 3: Mantenha se orgulhoso com Stardust Crusaders
  4. JoJo Parte 4: os estranhos casos de Diamond is Unbreakable
  5. JoJo’s Bizarre Adventure parte 5: Crime e violência em um Vento Aureo
  6. JoJo’s Bizarre Adventure Parte 6: Rumo à Liberdade em Stone Ocean
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Mestre em Jornalismo de guerra e conflito pelas universidades de Swansea e Aarhus. Tradutor de literatura indie, colecionador de brinquedos, leitor de quadrinhos e fc que ninguém conhece. Mestre das obscuridades.