Grande sucesso do fim dos anos 90 e aclamado pela crítica e público até os dias de hoje, Cowboy Bebop é um anime baseado no mangá homônimo de Hajime Yatate. Em 1998 foi publicado e logo após ser concluído, foi imediatamente transformado em animação. Em uma década na qual boa parte dos grandes títulos de anime tratavam de distopias – como Ghost in the ShellNeon Genesis Evangelion – Cowboy Bebop foi uma sacada genial que soube aliar originalidade, saudosismo e boas referências.

A trama se passa em 2071, com a Terra se tornando um planeta quase inabitável devido aos constantes meteoros que atingem sua superfície. Consequentemente há uma migração dos humanos para outros planetas e um grande avanço e desenvolvimento da tecnologia espacial. A população continua aumentando e faz o sistema do policiamento um serviço um tanto ineficaz, sendo necessário recorrer à criação de um sistema de Caçadores de Recompensas (daí o termo Cowboy).

Os 4 protagonistas viajam pelos sistemas a bordo da nave Bebop (daí o segundo nome da obra) e trabalham como caçadores de recompensa, embora não fosse suas primeiras opções como profissão. Os personagens são: Spike Spiegel, ex-membro de uma máfia que carrega um passado triste em relação a um amor perdido; Jet Black, ex-policial que tem uma carga dramática em relação à antiga esposa e a um criminoso que prendeu, mas que foi responsável pela perda de um de seus braços; Faye Valentine, trapaceira e estelionatária que sobreviveu a um acidente com um ônibus espacial e foi colocada em estado de criogenia por anos, o que a fez perder a memória e sua identidade; Ed, uma simpática (e muito estranha) menina que é o espírito do grupo, além de ser uma hacker de altíssimo nível; e Ein, um corgi geneticamente modificado para ser extremamente inteligente. Cada um dos personagens se une por motivos muito espontâneos, e ao longo da trama vão desenvolvendo e se relacionando com seu passado e seus traumas.

São abordados conceitos diversos no decorrer dos 26 episódios da trama, seja no caso a ser resolvido, ou na relação intrapessoal de cada membro da Bebop. Há um existencialismo muito profundo na relação que o Spike estabelece entre seu passado e seu presente, sem perspectiva de um futuro, além de um quê de niilismo. Jet traz as mágoas de ter sido deixado para trás pela esposa sem nenhuma explicação aparente, além da traição de um grande parceiro de trabalho. Já Faye traz as dúvidas existencialistas ligadas à sua perda de memória e ao tempo aparentemente “perdido” em sua criogenização. Quem sou? O que realmente sou? De onde vim? Como cheguei aqui? São questionamentos e incógnitas sempre presentes na personagem. Já Ed traz um background muito mais sutil e igualmente profundo. Abandono familiar e negligência, tratados de maneira muito delicada e indireta, mas igualmente pesada. Ein acaba por ser o espectador de cada trajetória dentro da Bebop.

No que diz respeito aos aspectos técnicos da animação, é notável o cuidado com os traços e as cores, além da preocupação individual com cada episódio. Um ponto essencial dentro da obra, tanto para sua compreensão, mas também para sua enorme fama e aceitação, é sua trilha sonora. Composta pela magnífica e renomada Yoko Kanno, que montou uma banda especificamente para a trilha sonora de Cowboy Bebop, a The Seatbelts, composta quase que exclusivamente por jazz (com exceção do episódio Heavy Metal Queen), em uma contraparte à maior parte das trilhas sonoras de distopias espaciais da época, que quase sempre tendem a ser mais experimentais. Quem sequer imaginaria assistir uma perseguição espacial ao som de um jazz frenético? E após o fim do anime, a banda fez uma turnê pelo Japão, apresentando os álbuns que fizeram parte da soundtrack.

A maneira como a trama é conduzida nos leva a um cenário western futurista, com um clima noir e retrô, sem necessariamente perder o ar de originalidade e criatividade, é a trilha sonora é em boa parte a responsável por criar um clima tão eufórico em alguns momentos, e tão melancólico em outros. Por exemplo, é impossível ouvir a canção Call me, Call me sem lembrar da triste partida da Ed e do Ein, bem como é impossível dissociar a canção The Real Folk Blues, tema de encerramento, do passado problemático do Spike, envolvendo a Julia e o Vicious. As referências e inspirações para a trama são as mais diversas possíveis: a relação de parceria entre Jet e Spike é uma clara referência a Lupin III, um clássico das animações japonesas, de onde parte da aparência do Spike, do Jet e da Julia foram extraídos. Spike também possui referências ao grande astro das artes marciais de Hong Kong, Bruce Lee, especialmente em seu estilo de luta e em trechos nos quais ele referencia filmes famosos do ator. Todo o cenário espacial e os caçadores de recompensas com perseguições frenéticas são uma óbvia menção ao cenário western do cinema norte-americano clássico e a séries como Star Trek. Há uma série de outras referências e easter eggs, como o trio de idosos que aparece em quase todos os episódios, seja como personagens efetivos ou simplesmente figurantes, e que seriam supostamente de inspiração em figuras brasileiras, uma vez que a Bossa Nova é uma das inspirações de Shinichiro Watanabe, diretor do anime.

Entre 2008 e 2009, houve uma tentativa de transformar o anime em um filme live action, e Keanu Reeves chegou a ser anunciado no papel de Spike. No entanto, o projeto foi engavetado e só se voltou a tocar no assunto esse ano, com o anúncio de uma série de TV sobre Cowboy Bebop em parceria com a ITV e a Tomorrow Studios. Um projeto arriscado e complicado, se levarmos em consideração as recentes adaptações de animes por Hollywood e suas enormes falhas e críticas.

Uma obra original e ao mesmo tempo nostálgica, com momentos de comédia muito bem orquestrados em contraponto a momentos de tristeza e reflexão profunda, imergindo o espectador na vida e nos dramas de cada membro da nave, Cowboy Bebop é certamente e claramente um dos animes mais perfeitos e bem feitos até o presente momento, cumprindo com excelência todos os requisitos e provando o motivo de ser considerado tão clássico e tão atual, mesmo nos dias de hoje.

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Nasci no dia 11 de novembro de 1995 e hoje moro no litoral catarinense, onde também curso Jornalismo na Univali. Além de ser o fundador e idealizador da Q Stage, o qual me dedico desde 2014, sou músico e também trabalho em um Laboratório de Inovação Tecnológica.