Nesses tempos de radicalismo emergente e manifestações abertas de ódio, a boa e velha Ficção Científica se revela ainda relevante – mesmo que por vezes de forma incompreendida. Publicado pela Games Workshop desde 1987, o Wargame Warhammer 40,000, abreviado como Warhammer 40k – um jogo de miniaturas na “Macabra Escuridão do 41º Milênio” – angariou um grande séquito de seguidores entre a chamada “Alt-Right” – por todos os motivos errados.

Publicado originalmente como Rogue Trader, o jogo centra-se nos infindáveis conflitos do 41º Milênio, onde jogadores controlam exércitos uns contra os outros. Nesse cenário beligerante, as forças do Imperium do Homem e seus super soldados, os fuzileiros espaciais, lutam contra as legiões traidoras a serviço dos Deuses do Caos, os selvagens Bandiguerra Orks, a antiga raça dos Eldar (basicamente, elfos do espaço), o enxame devorador dos Tyranids e toda forma de inimigo interno e externo.

Um futuro fascista e os fascistas que o seguem

O futuro mostrado por Warhammer 40k segue a verve da ficção distópica britânica, a mesma que nos trouxe personagens como Juiz Dredd e clássicos literários como 1984. Não é um futuro otimista como o de Jornada nas Estrelas nem tampouco um soco de realidade como boa parte da literatura Cyberpunk: O “Imperium do Homem” de Warhammer 40k é um futuro onde tudo deu errado, uma sociedade retrógrada e ignorante, regida por um culto paranóico e tradicionalista, um estado totalitário e uma elite político-econômica literalmente acima das leis. Um estado que se mantém mediante a xenofobia, a repressão de dissidentes e a vigilância constante.

O Imperium: culto à personalidade, iconografia fascista e religiosa, e muita ignorância

Autoridades policiais agem como júri, juiz e executor. Autoridades clericais detém o poder para condenar mundos inteiros ao esquecimento e o genocídio por suspeita de crimes contra o Imperium. A ciência e a tecnologia se encontram nas mãos de um culto fanático que, para manter seu poder, mesclou seu conhecimento com rituais desnecessários para dar aquilo uma aura de misticismo – e foi engolido por sua própria mentira. Bilhões de pessoas morrem diariamente em uma guerra permanente contra inimigos dentro, fora e além enquanto um imperador moribundo mantido vivo contra sua vontade é adorado como um Deus e tem sua mensagem pervertida em nome de um totalitarismo feudal e teocrático. Guerras civis queimam planetas inteiros em nome de causas banais como o destino de documentos e guerras há muito esquecidas. Crianças são levadas e sujeitas a procedimentos cirúrgicos para gerar mais e mais supersoldados para o Imperium, grande parte delas morrendo por conta da ritualística desnecessária que tomou os procedimentos.

Um criado, mantido e voltado para a guerra

O futuro de Warhammer 40k é abominável – deliberadamente – e o Imperium, dotado de iconografia que não sem motivo remete ao nazi-fascismo, de longe um dos mais perversos atores em cena. Ainda assim, não falta quem o veja com bons olhos – ou como um exemplo a ser seguido. Há por uma certa parte do fandom uma admiração pelo Imperium, e uma forte correlação entre essa parte do fandom e a movimentação política que se viu na última sexta-feira.

O imperador-deus Trump, para o nacionalismo branco americano.

Em messageboards como o infame /pol/ do 4chan e o site neonazista Stormfront, figuras como Adolph Hitler e o presidente americano Donald Trump são comparadas ao Imperador-Deus da Humanidade. Ações da Alt-Right são comparadas com as (inúmeras) cruzadas imperiais e imigrantes são comparados com “a escória Xenos” – comparando em particular os Orks com negros e árabes – estes também comparados com as forças demoníacas do Chaos – enquanto imigrantes em geral são comparados aos Tyranids. Para essa parte dos fãs, o Imperium não é um completo fracasso sócio-político, mas um regime forte e destemido, que não “se acovarda” ante aos “esquerdistas” e “estrangeiros”. Há de se notar que outras imagens de seres sub-humanos são usadas pela Alt-Right como forma de atacar imigrantes e minorias, em uma prática chamada “Orcposting“. 

Sátira: nem sempre cômica

Essa parcela do fandom de Warhammer 40k comete um erro comum com sátiras: levar ela a sério. O mesmo ocorre com várias leituras de Juiz Dredd, que vem o quadrinho ou como uma apologia ao fascismo ou como um exemplo de como “a justiça devia ser feita”. Tanto Dredd quanto 40k pegam certos pontos de vista comuns na sociedade e os levam aos seus extremos lógicos. Está certo quem diz que o Imperium é fascista – pois essa é justamente a ideia: escancarar os problemas do ideário fascista levando-os à sua conclusão e mostrando um futuro distópico onde essa mentalidade venceu completamente.

Dredd: uma sátira política mordaz

Há uma concepção errônea e comum de que sátiras hão de ser engraçadas: que Dredd, 40k e outros não são sátiras por não serem comédias (embora muito de Dredd seja cômico – e Warhammer 40k nasceu cômico). Parte disso se deve à chamada Lei de Poe: cada vez mais fica difícil diferenciar conteúdo satírico de conteúdo que realmente defende aquele ponto de vista, e sátiras cômicas não tendem a sofrer tanto com este problema – embora a quantidade de fãs de South Park que veja Eric Cartman como um exemplo a ser seguido demonstra que até estas tem seus leitores enganados.

Ainda assim, algumas das mais mordazes sátiras não traziam em si elementos explícitos de comédia. Modesta Proposição, de Jonathan Swift, uma das mais importantes obras do gênero, parece à primeira vista um ensaio sincero sugerindo que os pobres da Irlanda vendam seus filhos como comida para os ricos. Swift visava escancarar a direção para a qual a política e as posições da elite contemporânea estavam levando o povo da Irlanda. Laranja Mecânica, de Anthony Burgess, é uma sátira mordaz sobre a relação da sociedade com a violência; Psicopata Americano, de Brett Easton Ellis, satiriza a cultura corporativa de Wall Street pintando o comportamento dos yuppies e o desprezo destes pelos estratos mais baixos da sociedade como psicopatia. Yevgeny Samyatin atacou o totalitarismo com Nós. O fator central da sátira não é o humor, mas a exposição e ridicularização de normas e posicionamentos sociais – coisa que Warhammer 40k faz abertamente com o fanatismo religioso, o militarismo e o totalitarismo.  

Fruto do Thatcherismo – e dos temores da época

Warhammer 40k surgiu em meio a um dos mais tumultuosos períodos da política britânica, o governo de Margaret Thatcher (1979-1990). O período foi marcado por um forte movimento conservador, um intenso discurso militarista e o aumento do aparato repressor do estado britânico. O governo justificava medidas reacionárias como forma de combater ameaças internas e externas, ao mesmo passo que usava destas ameaças para se manter no poder. Ao mesmo tempo, Thatcher expandiu o poder político do empresariado, aliviando regulamentações econômicas e trabalhistas. Seu governo era, simultaneamente, controlador e liberador – dependendo do estrato social.

Pouco interessada em ser amada, Thatcher – conhecida como a Dama de Ferro – contentava-se com ser temida. Seu governo, quer por suas posições socialmente ultra-conservadoras, por sua tendência repressora quanto à dissidências ou por sua disposição a ignorar a vontade popular e o legislativo em suas decisões moldou em grande parte a ficção científica, a televisão e a literatura britânica do seu tempo. Em Planetary, Warren Ellis deixa bem claras suas opiniões quanto ao tipo de governo que Thatcher fazia – e explica a cultura assustadora que surgiu da época de forma simples: A Inglaterra era um lugar assustador.

Orks: basicamente, um bando de Hooligans espaciais

Isso era fortalecido pela turbulência política na Irlanda e o crescimento de grupos de skinheads, punks e hooligans nas ruas do Reino Unido. Fossem anarquistas contra Thatcher ou fascistas que viam nela sua líder, gangues de jovens revoltados expressavam suas opiniões mediante a violência – qualquer semelhança com os Orks não é mera coincidência. Não sem motivo, o maior líder de guerra Ork da franquia se chama Ghazghkull Mag Uruk Thraka – leia esses três nomes bem rápido com um sotaque britânico.

Saindo do aspecto político e do público que o tomou, Warhammer 40k é talvez o maior apanhado de referências literárias já usado para compor um jogo de miniaturas. De Duna a Juiz Dredd, de Tropas Estelares a Fundação, passando por Alien, Elric de Melniboné e Mad Max, o cenário da Games Workshop conta com referências e alusões a todo tipo de obra de fantasia, horror e ficção científica.

Apesar do comportamento de uma parcela lamentavelmente ignorante de seu fandom, Warhammer 40k segue como um dos mais interessantes universos ficcionais criados para um jogo de miniaturas – e um dos mais caros jogos de miniaturas, por sinal. É um olhar aterrador para a possibilidade de um futuro nada admirável para a humanidade, um estado totalitário mantido na base do medo, onde nada resta além da Guerra.

E há, infelizmente, quem veja isso com bons olhos e um modelo a ser seguido.

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