Cosplay: abreviação do termo costume play, que significa “representação de personagem à caráter”. Se você frequenta eventos votados para o público nerd, com certeza já notou a presença dessas pessoas. Para alguns é um hobbie, para outros é um emprego, mas de uma maneira ou de outra, o cosplay é uma forma de demonstrar seu amor e admiração por determinado personagem, desafiar a se mesmo na confecção, e acima de tudo ser uma experiência divertida. Bom, pelo menos na teoria deveria ser apenas isso.

Em pleno período de discussões sobre empoderamento, racismo e machismo no meio nerd, há um forte debate sobre esses preconceitos no meio cosplayer. Volta e meia, nos deparamos com comentários do tipo “Cosgorda” ou “Cospreto”, críticas maldosas que se referem ao biótipo ou etnia dos cosplayer. Para mulheres, essas críticas sempre saem com mais peso, pois há uma fetichização dos fãs em cima das personagens femininas — que na maioria das vezes possuem corpos completamente fora da realidade— e qualquer uma que fuja desse estereótipo, não pode se encaixar como uma cosplayer.

Se para mulheres são situações difíceis de lidar, para mulheres e homens negros, é ainda mais um desafio, pois há uma concepção de que pessoas negras não podem reproduzir personagens de etnia branca, e quando essas pessoas desafiam o sistema, muitas vezes sofrem as consequências do racismo disfarçado de crítica. Não é de hoje de cosplayers como Panterona, Kay Thomas, Kiera Please, que fazem sucesso com cosplays de super-heroínas, sofrem ataques racistas em seus perfis na internet.

Letícia Rodrigues,20, estudante universitária, começou a carreira de cosplayer há pouco mais de um ano. Como qualquer amante da prática, as inseguranças sempre rodearam a ideia, mas o fato de ter a pele negra sempre aumenta a hesitação em viver o personagem que admira. Não apenas com Letícia, mas grande parte dos cosplayers negros sentem ou já sentiram essa insegurança na hora de decidir sobre qual personagem se fantasiar.

Quando eu penso em fazer um personagem branco, ou asiático (anime, mangá) ou até negro mas mais magro que eu, acabo me boicotando, por mais fácil que seja de fazer.

Essa situação nos chama atenção para o racismo velado presente em nossa sociedade. Se analisar bem, não há problema em uma pessoa branca interpretar um personagem negro, mas quando a situação é contrária, damos de cara com um mar de argumentos —a maioria sem fundamento algum— de porquê o cosplayer não pode estar na pele daquele personagem. É simples e objetivo: a sociedade branca não aceita pessoas negras tomando um espaço que até então, pensavam que seria apenas dela. Não apenas no meio nerd, mas também no mercado de trabalho, no entretenimento e até nas universidades. A problemática que vivemos — pelo menos no Brasil—  é que há uma grande falta de representatividade negra nos meios de entretenimento. Quando você vê o jornal, uma novela ou até uma propaganda, a predominância de pessoas brancas disfarça de quem realmente é feito o país: índios e afrodescendentes.

Foto por: Letícia Rodrigues

A representatividade nos meios de entretenimento

Crescer vendo pessoas negras retratadas como empregadas ou criminosos, ajuda a criar rótulos, preconceitos que vão crescendo aos poucos. Isso explica a grande falta de heróis, princesas, e protagonistas negros no meio nerd — uma situação que vem mudando em passo lentos—. Mas antes é necessário compreender que representatividade não significa simplesmente encaixar um personagem negro na história, apenas para preencher um “buraco”. Representar de fato, é quando um personagem afrodescendente tem verdadeira relevância na história, e sua personalidade não se encaixa em estereótipos criados pela mídia — mercenários para os homens, barraqueiras para as mulheres.

Eu acredito que a importância é a representatividade, mostrar que podemos sim fazer cosplay, ser cosplayer, eu nunca achei que eu poderia fazer cosplay, mas depois que meu irmão fez e eu vi que tinha pessoas que faziam, e pessoas que eram cosplayer, eu comecei a me inspirar correr atrás e fazer. Representatividade importa inclusive entre cosplayers.

Apesar de esse paradigma estar mudando aos poucos com personagens como Finn (Star Wars) e Riri Williams (Ironheart), ainda há um longo caminho a ser percorrido, para mudar o imaginário da sociedade em relação à população negra. Francielle Soares, cosplayer de Salvador, explica como a falta de representatividade na mídia influencia diretamente na forma como os negros são enxergados no Brasil,  “Noto uma melhoria na variedade de representação, principalmente no exterior, com séries e algumas animações. Mas os estereótipos ainda são muito presentes, dificilmente somos representados em papéis de onde ocupamos espaços de poder e quando ocorre é sempre de pouco destaque, sendo comum papéis de alívio cômico, bandidos, empregada, amigo do protagonista. No Brasil, além dos personagens estarem quase sempre marginalizados, personagens Negras são constantemente hipersexualizadas”

Há anos, estamos acostumados com os estereótipos impostos pela sociedade, e isso se reflete em vários meios de arte, assim como no cinema. Dentre todos os clichês presentes na maioria dos roteiros, o mais repetitivo vem do homem negro, mercenário e armado até os dentes que faz piadas sem graça. Esses padrões reforçados nas telonas, nada mais são do que um reflexo de como a sociedade enxerga essas minorias, e a representatividade vem para quebrar esses paradigmas, mostrando que há muito mais por trás de um gênero ou cor de pele.

Assim como é importante na mídia, a representatividade também é necessária entre os cosplayers. Do mesmo modo que a personagem Uhura (Star Trek), inspirou milhares de jovens afrodescendentes nos anos 60, cosplayers negros também tem o poder de inspirar e influenciar a sua geração a não abaixar a cabeça para o racismo, e para os rótulos que a sociedade lhe impõe.

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