As obras de teatro tem seu prestigio ainda firme e segmentado pelo constante público fiel amante da arte dos palcos. No cenário nacional é possível perceber uma mudança drástica nos últimos 15 anos. O destaque da indústria cinematográfica cresceu, o da música cresceu, sendo que a indústria da cultura foi se adaptando as tecnologias e afins. E o teatro foi sendo deixado de lado, não pela falta de apelo, mas pelo decrescente incentivo ao meio.

É no teatro que a expressão artística se mescla com a dança, o cinema, críticas sociais e molda uma expressão cultural. Com roteiros criados, recriados ou adaptados, as peças teatrais representam leituras e releituras de espetáculos da escrita. A montagem Cão sem Plumas, de Deborah Colker, é um exemplo.

Apresentado a Q Stage pela jornalista Daniela Vieira, a obra esteve quinta feira (27/10) em Blumenau, Santa Catarina.

João Cabral de Melo Neto

Baseado no poema homônimo de João Cabral de Melo Neto, publicado em 1950, que acompanha o percurso do rio Capibaribe, aquele que corta boa parte do estado de Pernambuco. A metáfora trazida pela imagem do “cão sem plumas” serve para o rio e para as pessoas que vivem ao redor.

Famoso por suas obras de tendência surrealista, João Cabral de Melo Neto trouxe através de suas poesias, um tom de diplomata popular. O autor recebeu prêmios como o Neustadt, tido como o “Nobel Americano”, sendo o único brasileiro com tal premiação. Sua obra colaborou para a construção do roteiro feito para o espetáculo de Denorah Colker, em “Cão sem Plumas”.

Estreado em 3 de junho, no Teatro Guararapes, em Recife, o espetáculo realizado pela Cia. Deborah Colker insere a temática de uma realidade brasileira quase que inaceitável. Apresentando de forma explícita a pobreza da população ribeirinha, o descaso das elites e a vida no mangue. Na visão de Deborah, o espetáculo reforça a vida ao incabível, destruição do que é natural.

O espetáculo é sobre coisas inconcebíveis, que não deveriam ser permitidas. É contra a ignorância humana. Destruir a natureza, as crianças, o que é cheio de vida.

E nessa concepção ela traz através da dança, mesclado as imagens quase vivas ao fundo, a mistura com o cinema. As cenas são de um filme feito com imagens registradas em novembro de 2016. A coreógrafa, cineasta e toda a companhia viajaram durante 24 dias do limite entre sertão e agreste até Recife. Tais imagens projetadas ao fundo do palco dialogam com os corpos dos 13 bailarinos simultaneamente quase. O filme foi feito por Deborah e pelo diretor pernambucano Cláudio Assis, responsável pelos longas-metragens “Amarelo Manga”, “Febre do Rato” e “Big Jato”.

Na intuição de reforçar as metáforas da realidade, expondo o incabível de forma clara, os bailarinos se cobrem de lama, fazendo alusão às paisagens que o poema descreve. As passadas e passos são como os caranguejos, a famosa “criatura” que vive no mangue. Fazendo ainda alusão ao cantor e compositor Chico Science (1966-1997), principal nome do manguebeat.

Vale ressaltar que o manguebeat é um movimento contracultural original de Pernambuco. Trata-se da mistura de ritmos como rock, maracatu, eletrônico e parte do movimento do Hip hop. Notáveis bandas como Mundo Livre S/A, Chico Science (Nação Zumbi) são marcantes do manguebeat.

E numa mescla regional e universal, ela amplia as visões teatrais e sociais de tradição e tecnologia.Trazendo o conceito de construção de um “bicho-homem”, representado na coreografia. Essas concepções mostram que a artista não se baseou apenas em manifestações famosas em Pernambuco, como maracatu. Ela usufruiu de samba, kuduro e outras danças populares, não tão famosas fora do estado.

“Minha história é uma história de misturas”, afirma ela.

O grupo de Deborah se firmou como fenômeno pop em Velox, no ano de 1995. Trabalhos posteriores como Rota (1997) e Casa (1999) foram ampliando as possibilidades e trazendo novas forças. Posteriormente, temas existenciais, como os afetos foram trabalhados em suas peças, abrindo novos aspectos para a carreira de Deborah. Em Cão sem plumas, ela reúne toda uma carreira dentro da obra.

“Cabem a elegância do clássico, a lama das raízes e o olhar contemporâneo. O nome disso é João Cabral”, diz Deborah.

Reconhecida internacionalmente, Deborah recebeu em 2001 o Laurence Olivier Award na categoria “Oustanding Achievement in Dance”, tida como a realização mais notável em dança no mundo. E em 2009, criou um espetáculo para o Cirque de Soleil: Ovo.

Recentemente, em 2016, foi a diretora de movimento da cerimônia de abertura das Olimpíadas do Rio de Janeiro. A notícia trouxe impulso para fazer “O cão sem plumas”.

A trilha sonora original é feita pelos pernambucanos Jorge Dü Peixe, da banda Nação Zumbi e um dos expoentes do movimento mangue beat, e Lirinha, ex-cantor do Cordel do Fogo Encantado, poeta e ator. O carioca Berna Ceppas, que acompanha Deborah desde o trabalho de estreia, também faz parte da equipe.

Antigos parceiros estão em cenografia e direção de arte, como Gringo Cardia. Na iluminação está Jorginho de Carvalho. Os figurinos são de Claudia Kopke. A direção executiva é de João Elias, fundador da companhia.

 

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Escritor, ator, jornalista. Sagaz e constantemente zueiro. Rei das referências e amante eterno daquele nome que mora no fundo do poço. Manja de NFL.