De mãos juntas e com o olhar cabisbaixo e apagado, os chapeis brancos se destacam na multidão. A paisagem cinza denuncia o período sombrio em que vivem, e as capas vermelhas denunciam a função que lhes foi atribuída por obrigação. Um governo golpista que tomou o poder e a falsa ideia de progressão, enquanto minorias são subjugadas e assassinadas a cada dia. Esse é o cenário distópico de The Handmaid’s Tale.

Estreado por Elisabeth Moss, a série é baseada no romance homônimo da escritora canadense Margaret Atwood, lançado em 1985. A adaptação do livro para TV surgiu apenas em 2016 no serviço de streaming Hulu. Dirigida por Reed Morano, o seriado de 10 episódios foi aclamado pela crítica e pelo público, ganahndo 8 prêmios no Emmy Awards 2017, incluindo o de melhor série de drama e melhor atriz em série dramática. A renovação do contrato para uma segunda temporada já foi firmado e tem estreia marcada para 2018.

O atrativo de The Handmaid’s Tale é o fato da história escrita nos anos 80 se assemelhar tanto com o período sociopolítico atual. A história da série se passa em na República de Gilead, um país engolido por catástrofes, causadas pelas mudanças climáticas e pela poluição. A população se depara com uma baixa da taxa de fertilidade e doenças sexualmente transmissíveis. As mulheres capazes de gerar filhos, se tornam cada vez mais raras. Um golpe pelo governo totalitário e conservador, regido por uma ideologia cristã, cria uma nova divisão da sociedade que subjuga as mulheres e as dividem em castas sociais, agora sem possuírem direitos até ao próprio nome.

The Handmaid’s Tale’ é um alerta, uma história de resistência e sua construção de universo é impecável. É rigorosa, vital e muito assustadora. (…) Eu odeio dizer que essa trama é relevante atualmente, como se não fosse assim há três décadas. Mas vamos encarar: quando se tem um presidente que fala sobre mulheres como se elas fossem brinquedos, que deu a entender que uma jornalista durona estava menstruada, cujo governo juntou uma sala cheia de políticos homens para discutir a saúde das mulheres – bem, o marketing viral acontece por conta própria. Você pode não acreditar que alguém na vida real esteja tentando fazer como que os Estados Unidos se transformem em Gilead. Mas ‘The Handmaid’s Tale’ não é sobre uma profecia. É sobre um processo, sobre a maneira com que as pessoas se forçam a acreditar que o anormal é normal, até que um dia elas olhem ao redor e percebam que esses são os antigos dias ruins.

James Poniewozik, do The New York Times

A nova ordem social divide as mulheres em três posições: as Esposas (as mulheres de ricos e poderosos que regem o país), as Marthas (mulheres que trabalham com o serviço doméstico), e as Aias (o restante das mulheres férteis que são estupradas todo mês para gerar filhos). Essa divisão, projeta o incentivo à rivalidade feminina, uma vez que as Esposas são obrigadas a acatar e assistir ao estupro das Aias por seus maridos. A aura de desconfiança e hostilidade é evidente entre as mulheres, e essas relações dificultam a união das mesmas, pois muitas são manipuladas pelo novo governo.

A professora de Inglês, Gabriela Gambassi, de 21 anos, moradora de Ponta Grossa, afirma que ficou chocada com a realidade que a série traz ao representar a mulher. “Eu acho impossível a gente, como mulher, assistir essa série e não sentir um arrepio. Eu fiquei genuinamente preocupada com o tanto de pensamentos reais que eu vi reproduzidos ali, e o quanto aquele universo da série normaliza preconceitos que estão muito presentes na nossa sociedade. Porque na série eles deixam muito claro que não foi da noite pro dia, os direitos foram sendo tirados aos poucos”, conta.

A série nos chama a atenção devido a um problema recorrente: a retirada dos direitos mascarada de boas intenções. O governo regido por pilares religiosos e conservadores se aproveita do desespero da população, enquanto pouco a pouco retira cada direito conquistado das minorias. Mas o golpe não é repentino, ele vai crescendo e ganhando força aos poucos, enquanto a população acredita na ideia de segurança vinda daqueles que prometem um país progressista.

A Homossexualidade

Na república de Gilead, homossexualidade é um crime punível com morte. Para homens e mulheres inférteis ou homossexuais o destino é o mesmo: enforcamento, e os cadáveres deixados em praça pública para servirem de exemplo. Para as mulheres férteis, resta a mutilação genital, para que elas sejam “livradas” do pecado. “É bizarro. Acho que é a palavra que melhor define. Acompanhar o tanto de direitos que as mulheres, os LGBTs, os negros conseguiram com muita luta e depois ver onda de conservadorismo querendo desmerecer tudo com fundamentações rasas e religiosas, dá medo.”, comenta o estudante de Publicidade, Eduardo Camargos, de 21 anos.

É assustador comparar a ficção com a realidade. Uma mulher que viveu num período de revolução, há mais de trinta anos, narrar o futuro para o qual estamos caminhando. Mesmo vivendo na era informação, estamos nos afogando cada vez mais na ignorância, enquanto a violência é naturalizada e cultuada em nossa sociedade. The Handmaid’s Tale é o reflexo da realidade que boa parte da sociedade não quer ver e do que ela está se tornando. O extremismo e o preconceito velado se apoderam de discursos que podem nos levar a uma possível Gileade.

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