Bem e mal, ordem e caos, heróis e vilões, Jedi e Sith; narrativas trabalham frequentemente com um dualismo entre seus protagonistas e antagonistas. A forma mais clara dessa dualidade é maniqueísta: protagonistas heróicos contra antagonistas vilanescos. Mas por vezes, há um elemento mais profundo de caracterização na oposição entre protagonista e antagonista.

Um conceito psicológico abordado por Carl Jung é o de Sombra, correlato ao conceito Freudiano do Id. A Sombra jungiana compreende os desejos e traços reprimidos rejeitados pela mente consciente; aquilo que o indivíduo não deseja reconhecer em si e reprime, quer sejam negativos ou positivos. Em suma, nosso “lado sombrio”, longe da luz da consciência. Pego aqui o termo emprestado para tratar de personagens em dois sentidos: sombras Jungianas – aqueles personagens que são, à sua maneira, reflexos sombrios do que os personagens são, manifestando os mesmos traços que os protagonistas – e aqueles que são o que protagonista poderia ser caso não rejeitasse esses traços.

Este conceito abarca apenas parte deste tipo de caracterização; se por vezes antagonistas são escritos como shadowselves de seus protagonistas, por outras vezes eles são antíteses hegelianas da tese representada pelo protagonista e seu conflito com o “herói” simbolicamente o desconstrói e o reconstrói como um indivíduo (E uma ideia) nova. Em suma, essa é a essência do conflito narrativo, embora algumas narrativas a usem de formas mais ou menos pessoais – e algumas a usem de formas muito inusitadas: no livro Estação Perdido, de China Mieville, essa relação de conflito entre mentalidades diferentes e as possibilidades dali nascentes é usada como fonte de energia e arma, mediante um “engenho de crise” que converte as possibilidades resultantes do choque entre duas coisas – a crise – em energia potencialmente infinita.

Uma composição muito utilizada

Batman e Coringa: duas faces de uma mesma história

Exemplos dessa relação entre “herói e vilão” abundam, e não poucas as obras tratam desse conflito psicológico e ideológico de forma direta. Em A Piada Mortal, Alan Moore abordou o conflito entre Batman e o Coringa por esse viés, colocando o Cavaleiro das Trevas como representante da “Ordem” e o Palhaço do Crime como sua completa antítese, dividindo em comum – se confiarmos na origem contada pelo Coringa – um “dia ruim” que os levou a serem o que foram. De seu dia ruim, Bruce Wayne cria uma obsessão com Ordem e uma forma específica de Justiça. Joe Kerr, tira uma similar obsessão com a desordem e a noção de que basta “um dia ruim” para deixar alguém como ele, tentando ao seu máximo provar sua tese misantrópica com Jim Gordon.

O exemplo mor de antagonista como antítese e reflexo do protagonista, no entanto, há de ser o livro O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson. No clássico da literatura, Dr. Henry Jekyll cria um soro capaz de isolar os “freios morais” de uma pessoa. Sob o efeito do composto, Jekyll se transfigura periodicamente no perverso Mr. Hyde, sua sombra psicológica, com todas aquelas características por ele rejeitadas moralmente. A obra serviu de inspiração para O Incrível Hulk, com Bruce Banner em conflito interno com suas personas negativas, entre dezenas de outras obras.

Persona: enfrentando suas sombras, literalmente – e aceitando-as.

Katsura Hashino fez uma interpretação literal do conceito de Sombra em seu game Persona 4. Nele, as neuroses e os traços rejeitados de seus protagonistas se manifestam como monstros metafísicos que devem ser aceitos para serem vencidos: rejeitar sua “sombra” só a deixa mais forte. Uma interpretação menos literal e interpessoal do conceito está presente na série Harry Potter: Harry e Voldemort podem muito bem ser definidos como a sombra um do outro, dotados de vidas em muito similares e rejeitando em si aquilo que define o outro – embora ambos tenham muitos traços em comum, coisa ressaltada com frequência pela obra.

Char, Amuro Ray, Kamille Bidan e o caso de Gundam

As obras que trabalham seus personagens desta maneira são incontáveis, mas quero aqui chamar atenção para duas séries seminais da mesma franquia: Kidou Senshi Gundam, de 1979, e sua continuação, Kidou Senshi Zeta Gundam, de 1985, ambas por Yoshiyuuki Tomino. Centradas em conflitos espaciais no futuro distante – na primeira, a “Guerra de um Ano”, entre o estado nazi-fascista do Principado de Zeon e o governo totalitário da Federação Terrestre; na segunda, passada oito anos depois, entre o grupo terrorista AEUG, a força-tarefa fascista Titans e os remanescentes do Principado no Asteróide Axis – as séries são marcadas por personagens complexos e um uso intenso de tons de cinza morais: embora seus vilões sejam decididamente “vilanescos”, há muito de questionável em seus heróis.

Char e Amuro: o soldado dedicado de outra guerra e o soldado em uma guerra que não é sua

Na primeira, temos um protagonista – o jovem Amuro Ray (Tohru Furuya, o Seiya de Cavaleiros do Zodíaco e o Mamoru de Sailor Moon)-  e um Antagonista  – o ás de Zeon Char Aznable, o “Cometa Vermelho” (Shuichii Ikeda, Shanks em One Piece) que são tese e antítese um do outro: Amuro, o protagonista, é um guerreiro sem causa, em busca de um motivo para lutar em uma guerra na qual foi jogado contra sua vontade. Char, por sua vez – assim como vários dos antagonistas menores da série – tem uma causa clara para a qual é devotado, uma que vai além da guerra e para qual seu envolvimento no conflito é uma ferramenta. Amuro, o rapaz sem causa, tem suas ideias desconstruídas e questionadas por seu conflito com homens devotados a uma causa – e isso culmina no seu envolvimento com Lalah Sune (Keiko Han), ala e protegida de Char, que explicita o conflito dialético de sua vida: por que ele luta? Ironicamente, Char, ao mesmo tempo em que Amuro começa a desenvolver uma causa, vê a sua fraquejar: no encontro entre as duas “teses” humanas, ambas mudam. Amuro é parte, por sua vez, da tese discursiva da série, um dentre muitos jovens forçados a lutar em guerras que não lhes dizem respeito, meras ferramentas políticas para interesses que vão muito além dos combatentes.

Kamille: genioso, irascível, inventivo. Espelhado em seus antagonistas

Por sua vez, o protagonista de Zeta Gundam, Kamille Bidan (Nobuo Tobita), é em parte a antítese e o reflexo de Amuro: Amuro era jogado em conflito contra sua vontade, Kamille o busca. Ambos são prodígios mecânicos, newtypes de poder incomparável e marcados por um gênio antisocial. Amuro demonstra uma tendência a fugir de seus problemas, Kamille lida com eles no soco. De certa maneira, Kamille é a sombra de Amuro, externando as coisas da qual Amuro fugia. Enquanto Amuro se molda e se redefine por seu confronto com Char, Kamille revê sua mentalidade pelo diálogo com o mesmo homem, agora atendendo pelo absurdo nome Quattro Bajeerna.

Jerid: igualmente temperamental – incapaz de assumir seus defeitos.

Zeta se destaca pelo fato de que seus três antagonistas principais são reflexos de seus protagonistas. Primeiro, temos o pretenso rival, Jerid Messa (Kazuhiko Inoue, o Kakashi de Naruto), piloto de testes do grupo fascista Titans. Enquanto seu papel como jovem ás promissor arruinado por sua prepotência é um reflexo invertido de Char, sua caracterização é um espelho completo de Kamille: ambos são impulsivos, arrogantes e explosivos; a explosão emocional de ambos, movida por um insulto acidental de Jerid, catapulta a trama; por três vezes, Kamille e Jerid matam entes queridos um do outro; Ambos são manipulados por seus superiores. Mas quanto mais a série anda, mais eles se distanciam, não apenas em capacidade. Enquanto Kamille vê o quanto está sendo usado, Jerid se deixa levar por suas emoções. De um lado, temos ofensas acidentais, enquanto do outro temos intencionalidade – coisa que se inverte ao mesmo tempo em que Kamille passa a reconhecer seus erros e Jerid, outrora tão orgulhoso de ser senhor de seu destino, se vê como pobre vítima do mesmo. Ao fim, de reflexos um do outro, Jerid se torna a inversão de Kamille. Embora em ponto algum dê para dizer que Jerid demonstre “honra”, a interação de ambos com a ética no campo de batalha ilustra bem as direções dispares seguidas pelos dois. Enquanto Kamille, no início da série, não vê problema em abater oponentes indefesos (sendo o único a fazê-lo) durante a reentrada na atmosfera, Jerid vê isso como covardia. Ao final da série, no entanto, Kamille rejeita a noção de guerra como selvageria enquanto Jerid justifica seus atos com a frase Kore ga Senson darou ga – “Isso é guerra, não é?”

Haman: rejeição mutua por identificação

Em seguida, Haman Karn (Yoshiko Sakakibara e sua voz incomparável), a regente de fato da cidadela espacial Axis. Haman é a sombra mais violenta de Kamille, com o mesmo gênio indomável, as mesmas neuroses e a mesma pecha para rancores que o ás da AEUG. Ambos são marcados por um temperamento irascível – embora com manifestações diferentes: Kamille, de forma explosiva; Haman, em raiva fria. Haman se julga acima dos joguinhos emocionais de seu outrora amado (com que divide o comportamento manipulador e traiçoeiro), mas cai neles justamente por conta disso, deixando-se manipular por seu rancor – embora haja evidência de sobra que Haman estivesse fazendo uma jogada longa neste sentido – tomando decisões impulsivas que, no longo prazo, beneficiaram os planos de Char. Kamille, por sua vez, mesmo vendo a mentira ambulante que é Char, ainda se deixa levar por ele. A simetria entre os dois se explicita quando, em um reflexo de Amuro e Lalah na série original, Kamille e Haman fazem contato mental – um contato violentamente rejeitado por ambos, por enxergarem a si mesmos um no outro e verem o pior de si nisso – junto com a sensação de violação emocional  trazida pelo contato indesejado. Essa relação dupla de rejeição e identificação se mantém em Kidou Senshi Double Zeta Gundam, onde a similaridade entre Judau Ashta, si mesma na juventude e Kamille (e por extensão, Char) leva Haman a buscar a atenção e o afeto do órfão – pondo em risco seu poder político.

Por último, o conspirador e grande vilão da série, Paptimus Scirocco (Bin Shimada). Se os dois anteriores são reflexos distorcidos de Kamille, Paptimus é seu shadowself: um prodígio mecânico completamente imoral envolvido em uma conspiração intrincada para… alguma coisa, Paptimus é o que Kamille seria se tivesse poder, influência, paciência… e nenhum freio moral – essencialmente, o que Kamille era no começo da série (quando se dispôs a roubar um robô gigante para se vingar de um PM por ter tratado ele mal) se tivesse o grau de poder e influência que queria ter. O crescimento do protagonista, no entanto, faz dos dois opostos: passado por todo o conflito e desenvolvimento ao longo da série, temos dois jovens extremamente similares – não fosse seu senso moral e a maneira como lidam com as pessoas.

Scirocco: sedutor, genial, absolutamente imoral.

Ao mesmo tempo, Scirocco é também um espelho de Char, marcados igualmente por títulos imponentes (O cometa vermelho x O homem de Júpiter), planos dentro de planos, conspirações contra seus empregadores e uma tendência a tratar pessoas como ferramentas. Tanto Char quanto Paptimus usam de seu carisma considerável para avançar seus planos; ambos seduzem, manipulam e descartam mulheres despudoradamente – e uma dessas mulheres, Reccoa Londo (Masako Katsuki), é manipulada pelos dois. Seus discursos, marcados por belos ideais (sobre preservação da Terra, no caso de Char; sobre empoderamento feminino, no caso de Paptimus) mascaram suas verdadeiras intenções – e levantam perguntas quanto até que ponto eles acreditam no que falam. Ao mesmo tempo em que é um “Kamille do mal”, Scirocco também é um Char do mal (ou mais do mal, dependendo da sua opinião sobre o Cometa Vermelho).

Exemplos do uso de caracterizações fortemente psicológicas ou dialéticas para estabelecer antagonistas não são raras. Então fica aqui uma proposta para você, caro leitor: Que histórias você acha que usam isso? Vamos ouvir mais personagens que são sombras ou antíteses plenas de seus protagonistas?

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