– Eu? Eu sei quem eu sou. Eu sou o cara interpretando um cara, difarçado de outro cara. Você é um cara que não sabe qual cara que é!
– Ou é você o cara que não faz ideia de qual cara é, e diz saber qual cara é ao interpretar outros caras?
– Eu sei qual cara eu sou!
– Você está com medo.
– Eu não tenho medo. Medo do que?
– Ou com medo de quem?
– Com medo de quem?!
– Com medo de você.

Existem dois motivos para esse diálogo entre Kirk Lazarus e Tugg Speedman começar esse texto. O primeiro é óbvio: Trovão Tropical é uma conquista do cinema de comédia que deveria ser lembrada em toda e qualquer oportunidade. Já o segundo, bom: porque a total compreensão da problemática que existe em torno do mergulho desenfreado de um ator em seu personagem, zoada magistralmente na obra-prima de Ben Stiller, só foi alcançada por este que vos escreve depois de assistir a Jim & Andy: The Great Beyond – Featuring a Very Special, Contractually Obligated Mention of Tony Clifton, novo documentário original do Netflix.

Não é de hoje que nós, amantes da sétima arte, ouvimos relatos escabrosos dos chamados atores de métodos™ e suas peripécias em sets de filmagem mundo afora. “Aquele Daniel Day Lewis passou meses construindo canoas e vivendo em tendas para filmar O Último dos Moicanos“; “Heath Ledger se trancou num quarto de hotel com nada além de pílulas e uma ‘bíblia da maldade’ para se tornar o Coringa”; “Nicolas Cage comeu uma barata [na realidade, duas :9] em O Beijo do Vampiro“; “Jared Leto esfregou o saco na cara de Jai Courtney porque é isso que o Coringa faz” e coisas do gênero, voam por aí aos sete ventos como voam os passaralhos da vida.

Agora, ter a oportunidade de se sentar e assistir às bizarrices acontecendo, realmente tomando noção e dimensão do que pode acontecer atrás das câmeras quando um ator decide transformar seu corpo em nada menos que receptáculo para seu personagem, nunca havia sido proporcionada para mim, você ou sua tia que tá lá em Teresina, da forma que faz Jim & Andy: crua, intensa, e com depoimentos do próprio protagonista do caos. Mais importante: realmente mostrando o quão ruim isso pode ser para com colegas de trampo.

Fazendo enorme sucesso entre os anos 1975 e 1984, quando morreu, Andy Kauffman se sagrou um dos mais influentes e revolucionários comediantes de todos os tempos. Absolutamente frenético, imparável e implacável, ele levou para além do lugar comum os míticos limites do humor, criando esquetes hilariamente simplistas (Mighty Mouse, ou o Foreign Man), estendendo piadas, rumores e pegadinhas por anos (como Tony Clifton), passando a testar o público fazendo humor só para ele mesmo — como quando simplesmente sentou-se à mesa no palco e comeu uma macarronada, arrancando risadas que não faziam o menor sentido — e, principalmente, não tendo o menor medo de errar e ser odiado. Kauffman veio ao mundo para causar, mudar, revoltar e inspirar. E o fez fortemente até morrer por conta dum rasteiro câncer.

Uma estrela maiúscula desde a década de 1990, Jim Carrey é um dos maiores atores de comédia de todos os tempos, tido por muitos como equiparável a Robin Williams e frequentemente comparado à lenda Jerry Lewis. Hiperativo, tão ou mais frenético que Kauffman, ele é um dos muitos jovens que, entre os anos 1970 e 1980, foram tocados pelo trabalho de vanguarda do humorista. Fascinado pelo sucesso daquele homem de cabelos desgrenhados, olhar ingênuo, mas muita malícia, Carrey viu nas brincadeiras que fazia para entreter sua família uma chance de mudar de vida. Decidiu tornar-se uma estrela e, com muito trabalho, talento e loucura, o fez, chegando a ser o homem mais bem pago de Hollywood em 1995 – mas hoje é mera sombra do que já foi, lembrado por cada vez menos pessoas por sua outrora evidente genialidade.

Só que, similaridades e influências à parte, Carrey e Kauffman sempre tiveram uma grande e central diferença no seu objetivo com o humor. Kauffman era um orador talentoso, dotado de pensamentos rápidos e uma interessante inclinação musical, mas, muito mais que isso, era um amante do ofício, claramente fascinado pela mecânica e pelas incertezas que levavam as pessoas a rirem — o que impulsionava sua criatividade. Carrey, por outro lado, sempre foi um gênio nato da comédia física, das imitações, das micagens e dos desafios ao lógico, ao mundano. Mas seu objetivo sempre foi — e isso ele admite sem grandes problemas — agradar o público. Ele perseguiu o sucesso freneticamente e, merecidamente, o alcançou, mas em troca duma restrição que o impediu de ser tão implacável quanto seu ídolo. Tirando uma certa vez…

Eram meados de 1997, quando Carrey ficou sabendo que o aclamado diretor Milos Forman, vencedor do Oscar por Um Estranho no Ninho, estava buscando o ator que traria de volta à vida Andy Kauffman em uma cinebiografia. “Eu não fazia testes já havia algum tempo, mas sabia que eu era o ator certo para o papel. Então eu peguei e fiz uma fita de teste e enviei para a produção”, conta o próprio Carrey. O resultado é um vídeo assustadoramente impressionante em que o ator, que não é nada fisicamente parecido com Kauffman, se transforma em trejeitos, voz e ~modus operandi, no cara. Desnecessário dizer que, bom, funcionou.

Carrey ganhou o papel e, além de colocar alguns quilos a mais para tentar se aproximar sua figura esguia da aura mais arredondada de Kauffman, decidiu que não faria uma simples imitação. Ele se tornaria Andy — e quaisquer outros personagens que o humorista fazia — em frente às câmeras e também atrás delas.

É isso que Jim & Andy traz à luz, quase 20 anos após o lançamento de O Mundo de Andy, em 1999. Por preciosismo dos estúdios (e incentivo de Carrey) uma equipe de filmagem foi contratada para registrar quase que ininterruptamente os bastidores do filme de Forman, liderada curiosamente por uma ex do próprio Andy Kauffman. O resultado foram horas e horas de gravações que, decupadas, formam os mais fascinantes momentos do documentário: trechos reais que mostram Carrey no set de filmagens agindo o tempo todo como a versão mais insuportável possível de Andy Kauffman – além de depoimentos de seus colegas de trabalho sobre quão parecido seu comportamento e atuação estavam com os do comediante.

O lance é que, embora seja uma cinebiografia bastante convencional em termos gerais, a grande sacada de O Mundo de Andy é ter repovoado o universo profissional de Kauffman com as mesmas pessoas, mais velhas, claro, com as quais ele conviveu. E são essas mesmas pessoas que aparecem, repetidamente, embasbacadas com a atuação de Carrey. E também bem pistolas.

Porque, minha nossa, como o cara é um babaca. Se não temos registros de como Jared Leto foi insuportável nos bastidores de Esquadrão Suicida, ao menos podemos INFERIR com base no quão insano foi Carrey em O Mundo de Andy. De vozes irritantes para se comunicar com colegas de trabalho, a prostitutas levadas inadvertidamente ao set, uma épica invasão da Mansão Playboy, batidas de carro e até manhãs ressacadas (com direito a ter de ser carregado por seguranças para o trailer de maquiagem), Carrey dá um show de falta de profissionalismo e escrotice, ao mesmo tempo em que honra o legado de Kauffman ao pregar uma peça ininterrupta, absolutamente desconcertante e claramente despreocupada com a afetividade de seu público.

Entrecortados a essas digressões estão depoimentos em “tempo atual” de Carrey, concedidos ao diretor Chris Smith, em que ele revisita os momentos mostrados e narra experiências para além da câmera. Esses momentos servem não só para contextualizar o que é mostrado do passado, como também permitem que Carrey revisite sua infância, sua mentalidade ao buscar o sucesso e, em especial, sua admiração por Kauffman. São trechos interessantes em que Carrey parece realmente sincero e à vontade, ventilando reflexões sobre seu próprio ego, suas ambições e inseguranças à época da produção, além de anedotas bizarras.

Como, por exemplo, quando ele fala que o próprio diretor Milos Forman, absolutamente de saco cheio em ter de lidar com Andy Kauffman ou, pior, Tony Clifton — um personagem que Andy interpretou por anos, sempre negando fazê-lo, que é absolutamente odiável — e não conseguir falar com o ator que contratou. A resposta de Carrey, além da tréplica de Milos, dizem muito sobre a arte do cinema. Mesmo que não seja verdade.

Jim Carrey e Milos Forman no set de O Mundo de Andy

Porque o que é verdade e o que não é, em Jim & Andy, completa a loucura metalinguística que presenciamos. Desde um fragmento da história narrada ali, que é apresentado no início do filme e negado apenas na última cena, até diversos pontos de leves incoerências e, principalmente, o tema central de tudo (o jamais confiável Andy Kauffman), é difícil não enxergar o documentário como o fechamento de uma grande piada feita por Carrey em homenagem ao seu ídolo. Tenho certeza que muitas verdades estão ali. Mas com certeza, há muito mais que só isso no pacote.

Por exemplo, embora caras como Danny DeVito e Paul Giamatti fiquem surpresos com a encarnação de Carrey para Kauffman, o ex-pro-wrestler Jerry Lawler, famoso por estapear o comediante durante um programa de David Letterman, é muito vocal (até hoje) sobre como Jim errou a pegada. Amigo extremamente próximo de Andy (com quem combinou todos os seus embates), The King foi eleito o inimigo número 1 de Carrey no set, dando início a uma infindável maratona de encheções de saco que o próprio ex-atleta disse, em nada representava a sua relação com Kauffman.

Toda a treta rendeu até um tapão de Lawler em Carrey. 😀

Essa incerteza para com a verdade não quer dizer que o documentário esteja privado de momentos íntimos, emotivos e mais verossímeis. Uma das mais incríveis passagens acontece quando um dos colegas de elenco de Carrey, o veterano Gerry Becker, resolve entrar no jogo e discutir com Andy Kauffman, de quem ele vivia o pai, em um trailer de maquiagem. O resultado é incrivelmente emocional e assustadoramente artístico. Realmente poderoso. Assim como um episódio contado por Carrey envolvendo uma filha distante de Kauffman. Mas aqui, o cheiro de caô passa a subir novamente.

Carrey diz que sugeriu ao diretor Milos que usasse as imagens de bastidores no próprio filme, e isso certamente teria mudado a história de O Mundo de Andy. Fracasso de bilheterias e com recepção mista dos críticos, ao menos o filme levou Carrey a um Globo de Ouro – mesmo que tenha sido totalmente esnobado no Oscar em uma injustiça dois níveis abaixo de Fernanda Montenegro perdendo prêmio para Gwyneth Paltrow. Não marcou a fundo a história do cinema. Veio e passou.

Mas com Jim & Andy: The Great Beyond – Featuring a Very Special, Contractually Obligated Mention of Tony Clifton, Carrey, que foi quem guardou toda a coletânea de imagens dele mesmo dando a louca ao longo de todos esses anos, conseguiu elevar a obra original a algo muito mais interessante: um a introdução a um ensaio sobre a profundidade da arte cinematográfica e do LABOR do ator; um mergulho surpreendentemente íntimo na própria psiquê; uma ainda mais poderosa homenagem a Andy Kauffman; uma piada digna de não só um, mas dois dos maiores gênios do humor de todos os tempos.

É só uma pena que isso tudo venha à luz agora, num momento em que Carrey é mais relevante por seu posicionamento ferino contra as armas nos EUA, sua política bizarra sobre vacinas e/ou suas baboseiras existencialistas (que ele, claro, encaixa também em Jim & Andy), e uma polêmica horrenda de abuso relacionada ao suicídio de sua ex-namorada, Cathriona White (pesquise, é terrível). Porque enquanto Jim & Andy nos lembra que Carrey é um gênio indiscutível, solidifica que ele é, também, um puta dum babaca. E, no nosso momento de mundo atual, podemos abrir mão de gênios para nos livramos de babacas.

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Nasci no dia 11 de novembro de 1995 e hoje moro no litoral catarinense, onde também curso Jornalismo na Univali. Além de ser o fundador e idealizador da Q Stage, o qual me dedico desde 2014, sou músico e também trabalho em um Laboratório de Inovação Tecnológica.