Em 2014, a Marvel chegou ao ápice da construção do seu universo e consagrou-se como o estúdio dominante de filmes de super heróis. Não só deram novos ares ao Capitão América, tornando um personagem difícil de ser trabalhado tão atual e bacana para o novo público, como na prática mostraram que eles podem pegar personagens classe Z do seu universo e transformá-los em A. Foi o que James Gunn fez em Guardiões da Galáxia! Mesmo dentro de uma estrutura narrativa convencional, Gunn foi feliz na sua decisão em focar nos personagens e como eles se portavam dentro da história que estava sendo contada. Com elementos pop não só para agradar os fãs de quadrinhos, mas qualquer pessoa que queira se divertir, uma trilha sonora envolvente e animada e vários tons diferentes porém acertados de comédia, Guardiões da Galáxia virou o jogo sobre como fazer uma boa adaptação de quadrinhos. A era do sombrio e realista estava terminando. Três anos depois, James Gunn e sua trupe estão de volta para o segundo volume dessa aventura espacial!

Após salvarem a galáxia, Peter Quill (Chris Pratt), Gamora (Zoe Saldana), Drax (Dave Bautista), Rocket (voz de Bradley Cooper) e Baby Groot (voz de Vin Diesel) são conhecidos pelo universo e acabam contratados para executarem missões. Após realizarem uma missão para Ayesha (Elizabeth Debicki), Rocket rouba algumas baterias e a soberana jura vingança aos guardiões, contratando os Saqueadores, liderados por Yondu (Michael Rooker), que quer por as mãos em Peter novamente, mas talvez não para matá-lo. Quando os guardiões estão prestes a serem destruídos pelas tropas de Ayesha, surge uma figura que os salva. É Ego (Kurt Russel), o planeta vivo e pai biológico de Peter Quill. Ego, junto com sua fiel seguidora Mantis (Pom Klementieff), levam parte dos guardiões para o seu planeta e agora ele quer ter a oportunidade de ser o pai que nunca foi!

Depois do primeiro Guardiões da Galáxia, não haviam mais dúvidas do potencial da Marvel em adaptar as suas histórias em quadrinhos. Tanto que a cada novo filme era comum você entrar nas redes sociais e ver todo mundo repetindo “mais um acerto da Marvel”. Ironicamente desde guardiões o estúdio não surpreendeu mais. Joss Whedon não teve a liberdade criativa que queria e Era de Ultron se tornou um filme escada para os próximos filmes da Marvel; Homem-Formiga, apesar dos seus problemas de produção acabou sendo um filme bem divertido, mas um tanto esquecível; Guerra Civil parecia que era aquele filme que veio para mudar as coisas e durante boa parte da sua projeção ele havia surpreendido, contudo nos seus minutos finais a Marvel foi covarde em ir além do seu status quo atual e permaneceu confortável onde estava, prejudicando o resultado final do longa; e Doutor Estranho que era o filme que talvez mais exigisse um desprendimento, foi o mais moldado dentro da tão falada “Fórmula Marvel”. James Gunn desde o início disse ter tido liberdade para fazer o que ele queria em Guardiões da Galáxia Vol. 2 e felizmente era verdade. Temos novamente um filme da Marvel que ainda surpreende mesmo depois de sair da sala de cinema!

Gunn entendeu perfeitamente o que funcionou no primeiro filme e o que mais atraiu o público e deixa isso muito claro na sequência de abertura desse longa. Em um longo plano com os elementos mais queridos pelos fãs: música, comédia e Baby Groot e a ação em segundo plano, pois desde o primeiro filme não era esse o atrativo. Esse aperitivo do que seriam as próximas duas horas já te ambienta novamente naquele universo e te deixa feliz de reencontrar aqueles personagens, que felizmente, continuam sendo o ponto principal aqui. Peter Quill tem muito mais foco do que no primeiro filme e Chris Pratt se consagra como essa figura tão adorada quanto um Robert Downey Jr; Gamora continua não sendo a mulher mais letal da Galáxia como é descrita nos quadrinhos, mas a personagem tem muitos mais camadas e Zoe Saldana está bem mais a vontade no papel; Drax e Rocket continuam sendo os protagonistas em comédia e tanto Bautista quanto Bradley Cooper surpreendem a cada nova piada e a adição do filme, Kurt Russel está excelente. Super a vontade no papel, o ator consegue passar empatia, ser engraçado e dramático nas horas certas!

Há uma divisão do grupo e uma relação separada de cada um. Peter tem esse relacionamento a ser construído com Ego, que vai da desconfiança lentamente até o afeto e o filme brinca muito com o estereótipo de filmes do relacionamento pai norte-americano brincando de bola com seu filho. Sem falar no relacionamento e tensão não verbal entre Peter e Gamora; há a relação entre irmãs de Gamora e Nebula (Karen Gillan), que já vem do primeiro filme e continua a construir essa relação entre as duas e a figura de Thanos, que pode já ser uma ligação para a Guerra Infinita; a forma como todos lidam com o Baby Groot com afeto, como se realmente fosse um bebê humano e é cômico como Peter e Gamora se comportam como pais da pequena árvore; a cômica relação entre Mantis e Drax; e a inesperada relação de Rocket e Baby Groot com Yondu, que é a melhor do filme, pois o saqueador e o guaxinim se vem um no outro e além da parte cômica revela o inesperado elemento dramático muito presente nesse filme!

Guardiões da Galáxia Vol. 2 ultrapassa o patamar do primeiro filme em não se levar a sério. Os personagens aqui são em alguns casos tratados como se fossem personagens de desenho animado e em outros momentos eles literalmente mudam a fisionomia como desenho animado. Contudo mesmo dentro de toda essa graça, o filme surpreende com um drama pairando na história. Todos os personagens têm pelo menos uma fraqueza, medo ou passado traumático e isso não é apenas citado nas entrelinhas, mas desenvolvido sutilmente até vir à tona e, o que era até então um grande problema dos filmes da Marvel, de não haver consequências nas suas histórias, aqui finalmente é usado e não destoa do filme, nem do universo, torna ele ainda melhor. Quando o filme termina, dá até uma certa sensação de tristeza, pois você não espera que ele seria ousado ao abordar o tema “vida” e terminar sem uma piada, deixando o espectador emocionado absorvendo tudo o que ele presenciou e tocado por cada um dos personagens e por essa família que eles se tornaram. Muito bom, James Gunn!

O design de produção desse filme é simplesmente incrível. O primeiro guardiões já havia definido o visual do universo cósmico da Marvel (tanto que parece que será base para o Thor: Ragnarok), mas esse aqui é mais grandioso. Explora vários mundos e cada um com sua característica diferente, criaturas novas e sempre com cores muito vivas, principalmente as cores primárias e o amarelo! Além disso, obviamente a trilha sonora seria um dos elementos mais esperados para esse filme e ela não decepciona. Diferente das músicas do primeiro filme, que eram mais pop e conhecidas, a maioria das músicas desse filme são desconhecidas do público geral, o que é bom para trazer ótimas canções para o mainstream (a cara do James Gunn fazer isso) como também a música não só continua sendo parte da história que está sendo contada, como as letras das canções selecionadas dizem muito sobre os temas que o filme aborda!

Apesar de toda a liberdade que James Gunn teve, de não só repetir os elementos do primeiro filme, mas aperfeiçoá-los e ainda saber usar do drama para o bem da sua narrativa, isso não livra Guardiões da Galáxia Vol. 2 dos seus problemas. Como o ponto forte dos filmes são os personagens, vale começar dizendo que a Mantis fica abaixo do esperado. Você passa o filme querendo ver mais dela e do comportamento dela, mas ela é basicamente escada para o Ego e para as piadas do Drax e suas emoções e expressões faciais são muito semelhantes com as do Groot, então parece que ela está cobrindo o personagem quando não é o momento dele aparecer. Sendo que é uma personagem que lida com emoções que é um tema direto no filme; outro problema dentro das virtudes do filme que são as relações entre os personagens, faltam mais cenas entre Peter Quill e Yondu. Você se importa com ambos os personagens desde o primeiro filme, entende como era a relação entre os dois e o afeto escondido, mas quase nunca vê em cena, sendo que essa relação mostra-se quase como a principal na virada do filme!

Mesmo o primeiro filme seguindo uma narrativa convencional, James Gunn parecia ter um controle maior pela história que ele estava contando. Esse universo e personagens de Guardiões da Galáxia são muito loucos e cheio de piração, mas chega um momento que isso saiu do controle do diretor, da narrativa extrapolar um pouco mais do que o necessário. A questão da Mantis e a relação Peter e Youndu poderiam ter sido melhores se o filme tivesse dado mais tempo a eles e menos para a trama da Ayesha, que novamente volta a ser um problema de “vilões da Marvel”. A questão aqui não é que o filme tem um vilão fraco e sim que a Ayesha é uma ameaça pontual do filme, pois o verdadeiro vilão vai ser revelado mais para frente e por ter sido um personagem que conseguiu empatia do público, teve tempo de ser desenvolvido, é desde agora um dos maiores vilões da Marvel. Mas o caso da Ayesha é que chega em um momento que você já esqueceu dela, mas ela retorna no final de forma gratuita, sem realmente ter uma função, pois o seu objetivo enquanto personagem naquele filme já havia sido concluído e o gancho que era necessário para o futuro seria inserido de qualquer forma!

Apesar desses “problemas”, Guardiões da Galáxia Vol. 2 é o filme que, mesmo correndo o risco de ser boicotado pelas altas expectativas, que não existiam se tratando do primeiro filme, consegue repetir o que havia dado certo e do seu próprio modo trazer novos ares e personalidade para a franquia e o universo da Marvel. Mostrando que dá para se desprender das amarras do universo para contar uma boa história e ainda assim deixar elementos que podem ser especulativos para os próximos filmes (a cena do Stan Lee mesmo sendo cômica é talvez uma das mais essenciais para o futuro dos filmes da Marvel). Que dá para ter sucesso sem depender da “Fórmula Marvel” e ainda ir além quando necessário. Pela primeira vez em três anos a superficialidade do já conhecido bordão não existe e da orgulho de encher os pulmões para dizer “mais um acerto da Marvel”. Obrigado, James Gunn!

Observação: Há cinco cenas durante os créditos. É motivo suficiente para ficar mais um pouco na sessão!

Nota:
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