A mídia nerd já está acostumada com controvérsias – e semana passada, talvez tenha passado por uma das mais estranhas, envolvendo um slogan abraçado e papagueado pela alt-right, uma linha de brinquedos, quatro caracteres quase ilegíveis e um robô alienígena.

Falo, no caso, da recente e bizarra polêmica envolvendo um boneco da linha Power of The Primes, de Transformers, e um slogan de campanha de Donald Trump sorrateiramente inserido em sua decoração por um freelancer responsável pelo design visual da tampografia do boneco.

Grafado em “cyberglyphs” em uma minuscula estampa na lateral do boneco, o slogan “MAGA” (de Make America Great Again), mantra da campanha presidencial de Donald Trump, causou controvérsia – a começar pela inserção sorrateira de um slogan político, fortemente associado a movimentos conservadores e xenofóbicos, que abraçaram a figura do presidente republicano, em um brinquedo.

Caracteres dos Autobots

Um brinquedo que representa um personagem heróico e um imigrante, membro de um grupo cujo lema é “Liberdade é o Direito de Todos os Seres Sencientes” – carimbado com um slogan abraçado por um movimento que vê em imigrantes uma ameaça, em estrangeiros o inimigo e que redefine o conceito de liberdade ao seu bel prazer.

Racial Coding e ‘o primeiro Transformer negro”

O músico e ator Scatman Crothers

Mas há um fator problemático extra no caso: o boneco em questão não é qualquer boneco, é a mais recente figura do personagem Jazz, dublado originalmente pelo grande Scatman Crothers. Estiloso, cheio de ginga e de manha, com um linguajar pontuado por gírias “urbanas” da época e um apreço por música, Jazz foi o primeiro personagem codificado como negro na franquia – e que se manteve caracterizado por trejeitos típicos da cultura afro-americana desde então (com a exceção inexplicável de seu alvo Pretender de 1989). 

Há um elemento discursivo simbólico em “marcar” um personagem assim como “um dos seus”. Embora não tenha a importância narrativa ou cultural de um Pantera Negra, um Falcão ou uma Mulher Maravilha – até por ser meramente uma parte de uma linha de brinquedos que “por acaso” tem narrativas associadas a ela – Jazz não deixa de ser um dos poucos marcos negros na franquia. E uma das poucas representações positivas de destaque, aparecendo em um dos filmes e em múltiplas séries de TV.

Jazz pode ser visto como uma caricatura – como eram todos os personagens de The Transformers. Mas ao mesmo tempo, é um dos mais notórios personagens do desenho original, um dos únicos a sobreviver ao massacre do filme de 1986 (que matou quase todos os personagens que saiam de catálogo) e um dos segundos em comando dos Autobots. E graças ao slogan escondido, estampa manchetes sobre a alt-right. Não é de se duvidar que o tomem como mais um de seus símbolos.

Pior: é até hoje uma das poucas representações positivas de negros na franquia, dividindo seu parco espaço com caricaturas como os semi-analfabetos e mal educados gêmeos Skids e Mudflap e alívios cômicos como o incompetente Agente Fowler, de Transformers Prime.

Não é a primeira vez que discursos controversos foram escondidos

Esse não é o primeiro incidente de discursos sendo escondidos em peças de consumo – quer como mensagens políticas, desabafos ou como easter eggs simples – nem o primeiro caso a causar polêmica este ano. Em abril, o desenhista Indonésio Ardian Syaf foi demitido da Marvel após esconder em X-Men Gold #1 menções a um verso do Corão (QS 5:51, que afirma que não muçulmanos jamais devam ser vistos como aliados – similar ao conceito de “jugo desigual” em alguns sectos cristãos) e a um protesto extremista em dezembro do ano anterior.

Em um caso mais engraçado de outros anos, Ethan Van Sciver escondeu a palavra “Sex” em todas as páginas de New X-Men #118. O diretor de animação Masami Obari escondeu insultos aos produtores e roteiristas em textos de fundo de Dancouga, aproveitando que, por estarem em inglês, poucos leriam. Saindo da cultura nerd e dos casos esdrúxulos, a revista Playboy mantém uma tradição de esconder o logo do coelhinho da playboy em todas as fotos de capa. A história desse tipo de mensagem oculta é longa, controversa, e vai longe.

Muito barulho por pouca tinta?

Há de se questionar se um quadrado de 4x4mm merece tamanha controvérsia – ou se o debate não deva ser sobre a questão maior cercando o incidente. O pequeno e quase ilegível “MAGA” é símbolo de algo maior: a tentativa de movimentos políticos de se apropriar de símbolos e ícones culturais, dizendo sutil ou abertamente “isto é nosso”.

Como muitas outras cenas culturais – e talvez com mais intensidade do que as outras – a cena nerd se tornou o palco de um embate ideológico por vezes agressivo. Uns reclamam de “justiceiros sociais” “destruíndo” suas infâncias, outros reclamam da falta de inclusão e representatividade. Dos dois lados, acusam-se mutuamente de não serem “fãs de verdade”. Personagens são ressignificados e reescritos para se adequarem às visões de mundo de seus leitores – e Transformers não é exceção.

Atualmente, sob os cuidados da Idea and Design Works (IDW), a franquia se tornou uma das mais inclusivas em publicação. Relacionamentos homoafetivos, transgeneridade, debates sobre imigração e desigualdade social – tudo isso se tornou parte da narrativa de uma franquia que era sobre robôs atirando uns nos outros porque uns são bons e outros são maus.

E isso não agrada uma parcela considerável dos fãs – que querem um retorno aos “velhos tempos” antes “dos justiceiros sociais”. Para eles, a IDW está contaminando Transformers com feminismo, “ideologia de gênero”, multiculturalismo e comunismo. Que a própria editora tenha zombado deles e de Trump com o vilão Sentinel Prime (cujo slogan era Make Cybertron Great Again) apenas os agravou mais – e para estes fãs, o ato do freelancer ainda não identificado é um “gesto de coragem”. Ele “mitou”, como diriam os fãs brasileiros presidente americano.

Quer a reação seja exagero ou não, a Hasbro se desculpou pelo caso e abriu uma investigação para apurar precisamente como a mensagem – não sancionada pela empresa – acabou indo parar na decosheet final. O freelancer responsável – cujo nome não foi informado – não trabalhará mais para a empresa, e tudo indica que lotes posteriores da figura virão com a estampa alterada para remover o termo.  

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Mestre em Jornalismo de guerra e conflito pelas universidades de Swansea e Aarhus. Tradutor de literatura indie, colecionador de brinquedos, leitor de quadrinhos e fc que ninguém conhece. Mestre das obscuridades.