No dia 5 de outubro de 2017, o The New York Times divulgou uma matéria assinada por Jodi Kantor e Megan Twohey relatando acusações de assédio sexual contra o produtor Harvey Weinstein, um dos mais poderosos de Hollywood – desde então, aqueles que acompanham as notícias do mundo do cinema e do entretenimento em geral testemunharam uma verdadeira avalanche de dimensões assustadoras.

Mais de 50 mulheres, entre elas estrelas como Lupita Nyong’o, Gwyneth Paltrow, Angelina Jolie, Léa Seydoux, Brit Marling, Ashley Judd e Lena Headey, acusaram Weinstein de algum tipo de assédio, muitas delas dividindo histórias semelhantes nas quais o produtor as convocava para uma reunião supostamente profissional em um quarto de hotel. Algumas outras mulheres, como Rose McGowan e Asia Argento, foram além e acusaram Weinstein de estupro durante situações semelhantes.

James Toback, acusado por mais de 300 mulheres de assédio

Os casos datam desde pelo menos o começo dos anos 1990, e se alastraram com uma segunda reportagem, essa assinada por Ronan Farrow, para o The New Yorker, além de relatos isolados de atrizes e outros membros da indústria que denunciaram suas próprias experiências com Weinstein. Frente a tal “dilúvio” de denúncias, outras mulheres (e homens) da indústria contaram experiências com assédio não relacionadas ao produtor.

Acusações vieram à tona contra Ben Affleck, Oliver Stone, Steven Seagal, Warren Beatty, Val Kilmer, James Toback (que foi nomeado por nada menos que 300 mulheres) e até o irmão e parceiro de negócios de Harvey, Bob Weinstein, além de um batalhão de executivos, produtores e diretores que vítimas como Laura Dern, Anna Faris e Terry Crews não quiseram nomear.

Pronto, aí estão os fatos – no entanto, reportá-los incansavelmente durante esse mês de outubro deixou não só aquele gosto amargo da descoberta, constatação ou irrefutável evidência de que Hollywood tem um problema de abuso sexual, como também uma pergunta: E agora? Após Weinstein ter sido expulso da Academia e de sua própria empresa (embora Bob continue por lá), e após produtores e astros rapidamente “pularem fora” de seus projetos que já estavam sob a tutela da The Weinstein Company, o que muda – ou não muda – na cultura de assédio e machismo em Hollywood?

Alfred Hitchcock e Tippi Hedren promovem Os Pássaros

Inspira!

Antes de pensar no que vem a seguir, no entanto, é absolutamente crucial que analisemos a cultura na qual esses relatos de assédio nasceram – não para justificá-los, mas para entendê-los a fim de combatê-los melhor. Abuso de atrizes em Hollywood por parte de produtores ou diretores não é novidade pelo menos desde 1963, quando Alfred Hitchcock dirigiu Tippi Hedren em Os Pássaros.

Hedren conta até hoje que o diretor fez vários avanços sexuais para cima de sua estrela, e reagiu de forma irascível quando foi rejeitado – inclusive, exigindo que Hedren repetisse uma cena excruciante em que era atacada por pássaros centenas de vezes, em um processo que a deixou exausta e machucada. A quem interesse, o caso todo é contado em mínimos detalhes no ótimo telefilme A Garota, de 2012, com Sienna Miller no papel de Hedren e Toby Jones entregando uma performance espetacularmente desprezível como Hitchcock.

A cultura tóxica de assédio sexual e agressão em Hollywood existe em uma multidão de fatores, e a ideia de que “o bem da arte” justifica-o não é o menor deles. Às vezes, colocamos artistas em um pedestal porque sua arte significa tanto para nós, pessoalmente, e para a humanidade, como um todo. É preciso entender que fazer filmes também é um trabalho, e se submeter a experiências abusivas não é aceitável em nenhum ambiente de trabalho – ainda que elas existam em todos eles, e essa é outra parte de um problema enfaticamente sexista.

Rose McGowan, uma das atrizes que denunciou Harvey Weinstein

“Independente da indústria é constante a preocupação [por parte da mulher] de: ‘Será que estou sendo simpática demais e ele pode entender outra coisa?’. É muito comum as relações de trabalho se estenderem para além do ambiente e você fazer amizades no seu meio, sair pra almoçar, etc, mas percebo nitidamente que o receio que eu tenho de que isso pareça ou dê a entender algo mais ou algum tipo de relacionamento não é sequer cogitado por amigos do sexo masculino”, me conta a Laís Cenbrone, de 23 anos, atriz.

A ideia de Hollywood como um microcosmo da situação em outros ramos do mercado de trabalho é aterrorizante, mas também significativa e verdadeira. Na avalanche de revelações de assédio, homens como Terry Crews e Kevin Sorbo são as exceções tristes a uma regra ainda mais, que demonstra a realidade da vulnerabilidade da mulher no ambiente de trabalho. O problema tem implicações, raízes e tentáculos complexos, e que não podem ser reduzidos a um único caso.

Martha Raquel, 23, jornalista, define bem o contexto que precisamos para entender Weinstein e Hollywood: “[Ser mulher no ambiente de trabalho] é viver sob tensão o tempo inteiro e muitas vezes isso prejudica seu desempenho, porque você precisa se preocupar, além do trabalho, com a visão que estão tendo de você. E se você denuncia algum assédio sofrido você fica marcada. É muito comum as mulheres serem desacreditadas e fingirem que a situação não aconteceu. Isso nada mais é do que uma forma de coagir as mulheres a não denunciarem seus assediadores”.

Casey Affleck, acusado de assédio sexual, e seu Oscar de Melhor Ator por Manchester à Beira Mar

Expira!

Entendendo tudo isso, é preciso analisar o quanto de punição Weinstein realmente recebeu. O seu caso está sendo citado em Hollywood como exemplar no sentido de consequências, mas a verdade é que o produtor perdeu o emprego e foi parar em uma reabilitação para um suposto vício em sexo (na qual passou apenas uma semana) – sites de fofoca por aí dizem que a atitude de Weinstein é desafiadora, e ele espera voltar ao trabalho já em 2018. Não é o que provavelmente vai acontecer, mas tampouco seria algo inédito.

A lista de nomes de produtores, diretores e astros que foram acusados de agressão, assédio ou abuso sexual e voltaram com suas imagens imaculadas ao trabalho não é curta. Casey Affleck, que venceu o Oscar de Melhor Ator no último fevereiro; Mel Gibson, que foi indicado ao de Melhor Direção e agora estrela a comédia Pai em Dose Dupla 2, uma das grandes apostas do fim do ano na bilheteria; Woody Allen, Roman Polanski, Josh Brolin, Christian Slater, Sean Penn, Johnny Depp, Charlie Sheen, Nicolas Cage, Sean Connery, Michael Fassbender, Bryan Singer, Bill Murray, Terrence Howard…

Frente a essa lista, a denúncia e demissão de Harvey Weinstein faz diferença para Hollywood e, indo ainda mais longe, para as mulheres “comuns” que sofrem situações semelhantes em outras indústrias? “Sem dúvidas é um passo importantíssimo, mas obviamente são realidades muito diferentes e com alcances midiáticos distintos. Não há uma punição efetiva e é algo tão enraizado socialmente que é difícil até mesmo as mulheres encontrarem alguém a quem recorrer. A partir do momento em que não há alteração alguma na vida dos caras e eles continuam como se nada houvesse acontecido, enquanto as mulheres são sempre taxadas como ‘olha a que denunciou tal coisa, cuidado, a gente não pode nem brincar que já acha que é assédio’, estamos legitimando o comportamento violento deles”, me responde a Laís.

Ashley Judd, a primeira atriz a levantar a voz contra Weinstein em matéria do The New York Times

A Martha aponta outro efeito das denúncias públicas e, especialmente, suas razões: “Acredito que hoje em dia as pessoas caiam mais em cima e cobrem providencias – apesar de que muitos casos ainda seguem impunes. Com a internet as pessoas passaram a se posicionar e a ganhar espaço com as denuncias. O que há anos era quase impossível de acontecer – uma anônima denunciar um famoso – hoje em dia acontece com muita facilidade. Temos casos aqui no Brasil mesmo, como o da rede Globo”, cita, lembrando-se do caso de José Mayer, entre outros.

Em um mundo que passou tanto tempo em silêncio (um silêncio de propósito e intenção claros e opressivos), o barulho ensurdecedor das denúncias do último mês é um sussurro diante do trabalho que precisa ser feito para desenrolá-las e mudar a cultura na qual vivemos. As sugestões mais simples e imediatas para esse processo vem fáceis à mente: “Campanhas sobre igualdade de gênero, campanhas sobre assédio moral e sexual, ter um RH que realmente exerça a função e que dê auxílio à vítima, um sistema de punição severa para assediadores”, cita a Martha.

As mudanças mais profundas serão, fatalmente, mais difíceis de fazer, e exigem uma nuance que mal resiste na internet, que engole detalhes e sutilezas com tanta facilidade quanto amplia discursos importantes. Um exemplo? “A culpabilização da vítima é algo absurdo, assustador e extremamente comum. Eu mesma já tive medo de me pronunciar diante de algumas situações pois sei que não acreditariam em mim, ou diminuiriam a situação e me questionariam se não fui eu que dei abertura para isto. Não há suporte para quem sofre o assédio, mas há para quem assedia”, comenta a Laís.

A hora de largar “argumentos” velhos, como aquele que acusa as vítimas por ficarem caladas por anos antes de denunciar os assediadores ou normaliza comportamentos claramente abusivos dentro do ambiente de trabalho, seja ele na indústria do entretenimento ou não, passou. Se o caso Weinstein pode ter um efeito realmente positivo, é o confronto direto desses obstáculos que significaram tanto sofrimento, para tanta gente, por tanto tempo. O poder de denunciar não é tudo – mas certamente é algo além do que essas mulheres tinham antes.

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Nasci no dia 11 de novembro de 1995 e hoje moro no litoral catarinense, onde também curso Jornalismo na Univali. Além de ser o fundador e idealizador da Q Stage, o qual me dedico desde 2014, sou músico e também trabalho em um Laboratório de Inovação Tecnológica.