O cineasta canadense Michael Zelniker não subiu na categoria de documentário tradicional. Ex-ator que apareceu em filmes como “Bird”, de Clint Eastwood, e “Naked Lunch”, de David Cronenberg, Zelniker construiu sua carreira na ficção antes de se dedicar à narrativa ambiental.
“Não sou do mundo do documentário. Tive uma carreira adorável como ator… depois passei alguns anos lecionando. Mas, cerca de um mês após o início da pandemia, descobri que a floresta boreal estava sendo derrubada para a produção de papel higiênico. E pensei: ‘Meu Deus'”, diz Zelniker.
Essa descoberta o levou a fazer seu primeiro documentário, “The Issue With Tissue — a Boreal Love Story”, uma exploração pessoal dos ecossistemas florestais ameaçados do Canadá e das comunidades indígenas que lá vivem.
Para seu projeto mais recente, a série documental em oito partes “A Luta pela Mãe Água”, ele embarcou em uma aventura ainda maior e mais ousada. Filmada ao longo de 219 dias em 21 países, a série examina a crescente crise hídrica através das vozes daqueles que vivem na linha da frente. O projeto com lentes exuberantes foi adquirido pelos direitos mundiais pela Filmoption, com sede em Montreal, e dois episódios foram exibidos no Berlinale Series Market Selects.
Zelniker está agora de olho em um festival para sediar a estreia mundial e também pretende estimular a ação dos legisladores. Como tal, um episódio de pré-visualização será exibido na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque, no dia 22 de março, Dia Mundial da Água.
“Estou tentando elevar as vozes daqueles que foram ignorados por muito tempo”, diz ele. “Porque não apenas acredito que é a coisa certa a fazer, mas também acredito que é a nossa última esperança.”
A escala da crise que encontrou durante a produção do filme é surpreendente: mais de 2 mil milhões de pessoas não têm acesso a água potável e quase 4 mil milhões não têm saneamento adequado. Mas Zelniker estava determinado a evitar reduzir a questão a um problema distante ou localizado.
“Eu queria evitar que alguém se voltasse para mim e dissesse: ‘Oh, isso só está acontecendo lá’”, diz ele. “Então fui a todos os lugares – para mostrar toda a dimensão de como é esta crise.”
Zelniker, que filmou, dirigiu, editou e financiou ele mesmo o projeto, baseou seu filme na experiência vivida e capturou algumas cenas altamente emocionais com seus personagens, principalmente mulheres, porque são elas que têm a tarefa de garantir água para suas famílias.
“Em comunidades de todo o mundo, mulheres e meninas lideram a luta para proteger e defender a água”, diz ele, observando que “cerca de 90% do nosso documentário é dublado por mulheres”.
Campo seco do agricultor Dalit Maharashtra Índia
A parte mais comovente da série mostra Zelniker testemunhando mulheres e crianças coletando água contaminada, plenamente consciente de que isso as deixaria doentes. “Eu perguntava a eles: ‘Qual é a sensação de levar isso para casa, para seus filhos?’”, diz ele. “E eles diziam: ‘É uma sensação terrível. Sabemos que está contaminado. Mas o que podemos fazer? Isso é tudo que temos.’”
O filme também mostra estas mulheres dizendo “água é vida” em 26 línguas diferentes, o que Zelniker diz ter surgido espontaneamente, destacando o quão universal se tornou esta situação de acesso à água potável.
“Nunca pedi para ninguém dizer isso. Mas em todos os lugares que eu ia, eu ouvia isso. Porque quando você não tem água, você sabe que sem ela não há vida”, diz ele.
O episódio final ressalta essa perspectiva com uma montagem de mulheres olhando diretamente para a câmera e, por extensão, para o espectador.
“É uma espécie de momento privado entre eles e o público. Um apelo silencioso: ‘Ouça-me. Veja-me. Entenda a luta que estou enfrentando'”, diz ele.
Para além das suas histórias humanas, “A Luta pela Mãe Água” também pretende destacar a forma como os recursos naturais são tratados nos sistemas económicos modernos. Zelniker argumenta que a mercantilização da água, e da natureza de forma mais ampla, está no cerne da crise.
“Pegamos nas coisas de que dependemos para a nossa sobrevivência – água, árvores, plantas – e transformámo-las em mercadorias para lucro comercial. Para mim, isso é como vender o seu irmão ou irmã para a prostituição”, diz ele.

Mulher etíope buscando água contaminada
A série também enquadra a natureza como uma rede de relacionamentos, e não como um recurso a ser explorado. “Há uma relação rompida entre nós e o resto da criação”, diz Zelniker. “Os povos indígenas entendem que são uma família. Devem ser tratados com respeito, com reverência, porque são eles que nos dão a vida.”
Essa mensagem tocou as instituições internacionais. Após a exibição da Série Berlinale, Stefan Mager, chefe de energia, água e mobilidade da agência de desenvolvimento alemã GIZ, elogiou a série nas redes sociais, dizendo que ela se alinha com os esforços globais antes da Conferência da ONU sobre a Água de 2026, observando que “não apenas documenta crises – documenta coragem, resiliência e soluções lideradas pela comunidade”.
Zelniker espera aproveitar esse impulso à medida que as exibições estão a ser planeadas com organizações como a ONU Água e a ONU Mulheres, bem como agências governamentais como a GIZ, que convidou o realizador a regressar à Alemanha para apresentar a série aos decisores políticos.
Além de fazer filmes e defender a causa, Zelniker criou o Mother Water Fund, uma iniciativa sem fins lucrativos que canaliza todos os rendimentos da série de volta para as comunidades apresentadas no filme. Alguns dos primeiros projectos em preparação incluem o financiamento de um furo numa escola nos Camarões, onde as crianças caminham actualmente quilómetros todas as semanas para ir buscar água, bem como iniciativas na África do Sul e no Uganda.
“A maneira de mudar a opinião das pessoas é através do coração. Se as pessoas assistem a isso e não se emocionam, acho que não têm coração”, diz Zelniker, antes de citar James Baldwin. “Nem tudo o que enfrentamos pode ser mudado. Mas nada pode ser mudado até que seja enfrentado.”













