Em “Mariinka”, o cineasta belga Pieter-Jan De Pue conta outra história da guerra na Ucrânia – desta vez através da perspectiva de cinco jovens. Todos eles estavam em um marco crucial na vida quando a guerra estourou. Da noite para o dia suas vidas mudaram. Através de imagens observacionais íntimas, cartas lidas em narração e imagens de arquivo de suas vidas antes da guerra, De Pue mostra os efeitos devastadores e duradouros da guerra nas vidas dos protagonistas. Filmado ao longo de 10 anos, “Mariinka” capta a passagem do tempo e a mudança que ele traz, tornando-se assim um comovente diário de mudança e resiliência, mas também de perda esmagadora.
Alguns dos protagonistas têm conexões tangenciais entre si, enquanto alguns são familiares. No entanto, todos vêm da cidade de mesmo nome no leste da Ucrânia. É uma cidade dividida perto da fronteira com a Rússia. No centro dos combates, as lealdades do seu povo também estão divididas entre as duas facções em conflito. Natasha, uma boxeadora promissora antes da guerra, torna-se paramédica militar. Angela, de luto pela morte de sua família e amigos na guerra, contrabandeia mercadorias ao longo da linha de frente para ganhar a vida. Numa reviravolta de proporções bíblicas, os irmãos Mark e Ruslan lutam por lados opostos na guerra com animosidade vocal entre si: sombras de Caim e Abel. Seu irmão mais novo, Daniil, é adotado por uma família americana do Mississippi e separado de seus irmãos e de sua mãe viciada em drogas. Outro irmão, Maksim, é apresentado logo como tendo sofrido um ferimento debilitante devido à guerra. Porém os cineastas esquecem completamente sua história até os títulos finais, onde o público fica atualizado sobre seu paradeiro.
Embora “Mariinka” seja principalmente linear em sua narrativa, De Pue ocasionalmente alterna entre imagens de arquivo filmadas antes da guerra. Nataasha, em particular, aparece na escola, em sua formatura com trajes completos de salão de baile, o que contrasta fortemente com sua vida na linha de frente tentando salvar vidas e lidando com soldados feridos. A história de Angela é de resistência e tristeza. O filme segue enquanto ela toma medidas ousadas para contrabandear mercadorias e até bebês através da fronteira em uma zona de guerra militarizada. Ela é corajosa ou psicologicamente desligada dos perigos que a rodeiam? Tanto sua dor quanto seu entorpecimento são capturados de forma palpável pela câmera de De Pue.
A história dos irmãos mostra não apenas o atrito que separa uma família com diferentes lealdades patrióticas, mas também a separação geográfica e física de ter um deles longe, na América. Daniil, rebatizado de Samuel por seus pais adotivos, permanece conectado com seus irmãos por meio de ligações Facetime, cartas e presentes de Natal. Ele cresce dentro da linha do tempo do filme e se torna um jovem de 17 anos. Ele está intrigado com a vida militar, não apenas porque seus irmãos estão servindo, mas também porque ele cresceu na cultura das armas dentro de sua família religiosa do sul. Os cineastas fazem uma comparação contundente, mas sutil, com os ambientes de ambos os países que levaram esses jovens a se alistar. Embora “Mariinka” nunca responda explicitamente a essa questão, oferece ao público muitas possibilidades, incluindo patriotismo, piedade religiosa, nacionalismo e culturas violentas.
De Pue, que filmou ele mesmo o documentário, usa filme 16mm, fazendo com que essa narrativa visceral pareça íntima. A câmera permanece nos rostos para capturar as emoções que os atravessam. Usando canções folclóricas tradicionais ucranianas, narração e música intensa, os desafios que estes jovens enfrentam tornam-se claramente aparentes. As imagens de guerra mostram a destruição e perda de vidas e membros nas proximidades. Somando-se à força da narrativa está a edição propulsiva, particularmente na montagem das imagens filmadas nas linhas de frente da guerra.
Em última análise, “Mariinka” deixa menos a impressão de um documentário de guerra convencional do que de uma crónica fragmentada de juventude interrompida. A câmera íntima e paciente de De Pue captura o impacto emocional de uma década vivida na sombra do conflito. O que perdura no final do filme é a sensação de que o tempo passa e de vidas irrevogavelmente alteradas, um lembrete necessário de que as consequências da guerra se estendem muito além do campo de batalha.











