O vídeo online está agora a impulsionar quase todo o crescimento do negócio global de meios de comunicação e entretenimento, à medida que os modelos apoiados pela publicidade e os formatos mobile-first remodelam a forma como o público descobre e paga pelo conteúdo. Apresentando-se terça-feira na Content Americas, Maria Rua Aguete, da Omdia, descreverá como essa mudança está se acelerando e por que os microdramas emergiram como um dos formatos de vídeo online de maior escala.
As receitas globais de mídia e entretenimento atingiram US$ 1,1 trilhão em 2025, acima dos US$ 1,03 trilhão em 2024, representando US$ 70 bilhões em crescimento anual, de acordo com a Omdia. Desse aumento, US$ 64 bilhões vieram de vídeos on-line, com US$ 42 bilhões impulsionados pela publicidade. Omdia prevê que o mercado se expandirá ainda mais em 2026, atingindo 1,2 biliões de dólares.
“O crescimento já não vem da televisão tradicional”, disse Rua Aguete Variedade. “Tanto a publicidade na TV paga quanto na TV linear estão em declínio e, embora as assinaturas de streaming ainda estejam crescendo, a expansão está se tornando cada vez mais difícil em mercados altamente maduros, como os EUA, onde a penetração de SVOD já está em torno de 85%. Os níveis suportados por publicidade tornaram-se, portanto, uma alavanca de crescimento fundamental, ajudando serviços de streaming como o Netflix a se expandirem em mercados como a América Latina.”
A América Latina continua a ultrapassar os EUA
O crescimento regional continua desigual. Em 2025, as receitas da mídia latino-americana aumentaram 9,1%, para US$ 58 bilhões, em comparação com o crescimento de 3,4% nos EUA, que atingiu US$ 424 bilhões. O vídeo online já é o maior segmento individual na América Latina, com US$ 29 bilhões, à frente da TV tradicional, com US$ 18 bilhões.
A lacuna de monetização é grande. A receita média mensal por usuário da TV paga (ARPU) é de US$ 106,1 nos EUA, contra US$ 17,8 na América Latina, enquanto o ARPU SVOD atinge US$ 12,8 nos EUA, em comparação com US$ 5,6 na América Latina, revelando tanto o menor poder de compra da região quanto seu longo caminho de crescimento.
“A América Latina ainda tem um espaço significativo”, disse Rua Aguete. “A penetração do streaming é muito menor do que nos EUA, e os modelos híbridos e agrupados estão ajudando a desbloquear novos públicos.”
A Omdia espera que as receitas da América Latina aumentem 10,7% em 2026, para 65 mil milhões de dólares, com o vídeo online a expandir-se para 34 mil milhões de dólares, enquanto o crescimento dos EUA, embora melhore, permanece estruturalmente mais lento.
Netflix lidera à medida que modelos híbridos se normalizam
Em toda a América Latina, a Netflix é o serviço de streaming dominante, respondendo por cerca de 50% das receitas de streaming na região, uma posição reforçada pelo seu plano apoiado por anúncios e ofertas híbridas semelhantes agora adotadas pelos concorrentes.
“Os planos apoiados por anúncios expandiram o mercado endereçável”, disse Rua Aguete. “Tornaram-se uma alavanca crítica para o crescimento em regiões sensíveis aos preços.”
Plataformas sociais agora impulsionam a descoberta
Em todos os dispositivos, o YouTube é o serviço de vídeo mais utilizado globalmente, de acordo com dados de novembro de 2025 da Omdia. No Brasil, o YouTube e o Instagram Reels juntos alcançam 97% dos adultos online entre 18 e 64 anos, tornando as plataformas sociais o principal ponto de entrada para o consumo de vídeo.
Os padrões de uso mudam quando a visualização é medida apenas em aparelhos de TV conectados, onde os serviços de assinatura e as plataformas FAST permanecem altamente competitivos.
“A descoberta avançou rio acima”, explicou Rua Aguete. “Há simplesmente demasiado conteúdo disponível, fragmentado em vários serviços pagos e gratuitos. As pessoas encontram cada vez mais conteúdo primeiro nas redes sociais e nos dispositivos móveis, mesmo que acabem de o ver noutro local. Isto é fundamental para formatos como microdramas, onde os gastos com marketing podem ser dez vezes superiores aos custos de produção.”
FAST cresce, mas microdramas avançam
O FAST continua a se expandir, com receitas globais atingindo US$ 5,8 bilhões em 2025 e projetadas para se aproximar de US$ 11 bilhões até 2030. Os EUA, o México e o Brasil são os maiores mercados FAST em termos de uso, enquanto o Brasil é classificado como o segundo maior mercado de receita FAST globalmente, atrás dos EUA.
“O FAST continua importante e ainda fundamental em países como os EUA, Brasil e Austrália”, disse Rua Aguete. “Mas os microdramas estão crescendo mais rapidamente porque são desenvolvidos para dispositivos móveis desde o início.”
Microdramas e a economia da atenção móvel
A série curta com roteiro, normalmente de um a dois minutos por episódio, projetada para consumo vertical e móvel, atingiu receitas globais que atingiram US$ 11 bilhões em 2025, e Omdia espera que a categoria cresça para US$ 14 bilhões até o final de 2026, com US$ 3 bilhões provenientes de mercados fora da China.
O público principal continua sendo mulheres entre 25 e 50 anos, embora os títulos mais recentes sejam cada vez mais projetados para atrair também espectadores do sexo masculino. A descoberta é impulsionada principalmente pelo YouTube, Instagram e TikTok.
No quarto trimestre, os usuários de microdramas passaram mais tempo por dia assistindo microdramas em aplicativos móveis em determinados territórios do que no Netflix, Disney+ ou Amazon Prime Video, de acordo com uma nova análise da Omdia usando dados da Sensor Tower.
O uso no Brasil continua baixo, mas está aumentando rapidamente.
“Está mais próximo dos jogos do que da televisão”, disse Rua Aguete. “Baixos custos de produção, gastos altíssimos com marketing e monetização por meio de moedas, microtransações e também assinaturas semanais e mensais. A experiência publicitária costuma ser tão horrível que as pessoas pagam para assistir a conteúdos nos quais estão viciadas.”
Publicidade, Vídeo Vertical e Parcerias
Rua Aguete argumenta que a publicidade é agora o tecido conjuntivo que liga streaming, FAST, vídeo social e microdramas. Cerca de 30% das assinaturas globais de SVOD agora vêm através de pacotes de empresas de telecomunicações e não empresas de telecomunicações, incluindo parcerias com bancos e outras plataformas de consumo. No Brasil, canais liderados por criadores, como a CazéTV, aproveitaram os direitos esportivos premium para ultrapassar as emissoras tradicionais no YouTube, destacando como o poder de distribuição está mudando.
“Há mais dinheiro no sistema”, disse Rua Aguete. “Mas está fluindo por novas rotas, publicidade, vídeo vertical e formatos voltados para dispositivos móveis.” Ela acrescentou que as implicações já são visíveis na estratégia da plataforma. “O facto de os utilizadores de microdramas passarem mais minutos por dia a ver dramas curtos nos seus telemóveis do que os utilizadores da Amazon, Netflix ou Disney no telemóvel para ver o seu conteúdo, ajuda a explicar porque é que todas as principais plataformas estão agora a investir em conteúdo vertical”, disse Rua Aguete. “O objetivo estratégico é claro: aumentar o tempo gasto por usuário no celular, onde o envolvimento está se mostrando mais profundo e habitual.”












