Um dos autores mais elogiados da história da novela brasileira, Aguinaldo Silva é responsável por obras icônicas como “Tieta”, “Vale Tudo” e “Seu Próprio Destino”, tendo escrito alguns dos vilões mais infames do catálogo da gigante de mídia brasileira Globo. Silva voltou recentemente ao prestigioso horário nobre da emissora com “Três Graças”, sete anos depois de rumores de aposentadoria terem circulado após “O Sétimo Guardião”.
A Globo está lançando “Três Graças” internacionalmente na Content Americas esta semana, aproveitando de forma inteligente o grande impulso que a novela está tendo em seu país de origem. Estrelando uma lista dos nomes mais populares do Brasil, incluindo Sophie Charlotte (“Todas as Flores”), Murillo Benício (“Avenida Brasil”) e Grazi Massafera (“Verdades Ocultas”), “Três Graças” conta a história da heroína operária de Charlotte, Gerluce, uma mulher que se esforçou ao máximo para impedir que sua filha adolescente Joélly (Alana Cabral) repetisse um padrão seguido por gerações da família Das Graças: a gravidez na adolescência seguida pela maternidade solteira.
“Três Graças” foi vendido no Brasil como o retorno da Globo ao “novelão”, “grande novela” em tradução literal. O conceito se baseia no que é sem dúvida a maior força do gênero: sua propensão indiscutível para o melodrama. Quem melhor para liderar tal campanha do que Silva, que, mais de uma vez, parou o país inteiro para assistir ao acerto de contas descaradamente campal de um vilão?
Falando com Variedade à frente da Content Americas, Silva enfatiza como a novela possui “uma linguagem imutável”. “É um gênero que depende menos da ação do que da emoção, e emoção é algo que acontece dentro dos personagens. Tem sido a mesma coisa desde que Charles Dickens escreveu seus romances na Inglaterra e os distribuiu um por um. É a narrativa de um herói rumo ao conhecimento. ‘Três Graças’ é propositalmente estruturado como uma dose de melodrama disparada direto na veia.”
Com uma carreira de quatro décadas, Silva viu muitas mudanças no setor. Hoje, ele destaca as dificuldades de captar a atenção de públicos cada vez mais esparsos e acostumados com a velocidade do mundo digital. “Como podemos contar uma história que se desenrola em 170 episódios de 45 minutos, num momento em que o público está acostumado a assistir tudo o que deseja em menos de três minutos? A novela tem seu próprio tempo e, cada vez mais, o público tem o seu. A única opção é redobrar a essência do melodrama e a emoção que faz a história avançar.”
A inspiração para “Três Graças” veio de uma visita que Silva fez a uma maternidade durante a pesquisa para “Duas Caras”. “As mulheres grávidas formavam uma longa fila”, lembra ele. “A maioria eram adolescentes. Isso me tocou, ainda mais porque a maioria estava sozinha ou acompanhada de outras mulheres. Eram meninas que estavam se tornando mães solteiras. Essa imagem ficou comigo por anos.”
Aguinaldo Silva, cortesia da Globo
O autor credita seu retorno ao horário das 21h a “um vício terrível”. “Não conseguia me ver aposentado. Continuei inventando histórias que só contaria para mim mesmo. Aí, um dia, pensei: por que não voltar à ação? Trabalhar é quando me divirto mais.”
Apesar da “diversão” de escrever uma novela, a natureza da obra aberta é desafiadora para qualquer autor. As novelas brasileiras são escritas concomitantemente à exibição, e a reação do público muitas vezes influencia diretamente o futuro dos personagens. Silva, brincando, credita sua “falta de consciência do perigo” por sua atração por uma obra aberta. “Escrever uma novela é como se jogar do trapézio sabendo que não há ninguém para te segurar quando você cair. Quando se trata de uma novela das 21h no Brasil, há mais de 60 milhões de pessoas assistindo toda semana. Para um autor, é pura magia quando consegue conquistar os corações e mentes de todas essas pessoas.”
Alana Cabral, de 18 anos, está vivenciando essa magia em primeira mão. A estreante reconhece o peso de protagonizar uma novela de Aguinaldo Silva no horário nobre tão cedo na carreira, afirmando que isso a fez “crescer” imensamente em um curto espaço de tempo. “Eu já estava muito familiarizado [Silva’s] trabalho e sempre admirou a força de suas personagens femininas. Ser o centro das atenções em uma de suas histórias tão cedo na minha carreira exige muita maturidade artística e emocional. Eu não poderia estar mais feliz.”
A veterana Dira Paes (“Pantanal”), que interpreta a avó de Joélly, Lígia, ecoa esse senso de responsabilidade, dizendo que as novelas estão em “conversa direta” com o Brasil. Paes chama “Três Graças” de um presente de Silva, elogiando como a história aborda temas de traumas geracionais que falam de dores universais. “Isso permite que o público se torne seu cúmplice porque todos têm uma história semelhante em suas vidas.”
Paes reitera que está em “um grande momento” em sua consagrada carreira de quatro décadas. Além de “Três Graças”, o ator também estrelou recentemente “Manas”, de Marianna Brennand, apoiado por Sean Penn, que estreou no Festival de Cinema de Veneza em 2024 e manteve um forte impulso que até desafiou as chances de Kleber Mendonça Filho no Oscar Internacional de Cinema com “O Agente Secreto”. “O cinema brasileiro merece esse reconhecimento”, afirma Paes. “Temos um cinema que ultrapassa fronteiras apesar de ser falado em português. É um fenómeno global.”
“Venho do cinema e tenho imenso orgulho do cinema brasileiro e dos cineastas brasileiros”, acrescenta o ator de “Amor Divino”. “É uma obra de grande talento artístico que consegue ultrapassar fronteiras com a força de sua identidade e raízes culturais. Vivemos um momento verdadeiramente especial para a consolidação do cinema brasileiro internacionalmente. Me sinto inspirado e acho que é hora de ir além da nossa linguagem e começar a trabalhar em coproduções internacionais. Sinto que este é o próximo passo.”
Silva também tem “imenso” orgulho do cinema brasileiro, mas reitera que “não podemos esquecer que as novelas brasileiras também conquistaram a atenção do mundo”. “Dentro do setor audiovisual, o cinema e a televisão brasileiros têm ritmos próprios, mas caminham juntos.”













