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A energia herética de “Deus é”

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A noite raramente cai no mundo áspero e ensolarado do filme “Is God Is”, de Aleshea Harris, uma parábola de vingança sobre a destruição, ou o incêndio, da família Black. Um brilho envolve os protagonistas, gêmeos com tranças em formato de flor de milho combinando, chamados Racine e Anaia, que carregam na pele, em graus variados, cicatrizes de queimaduras. Racine e Anaia não têm mãe nem pai. Eles trabalham como faxineiros em um escritório; a certa altura, Racine expõe uma cicatriz elevada, no braço, a uma mulher bonita e profissionalizada, que recua desgostosa, ativando os violentos instintos de represália de Racine. A cicatriz de Anaia é uma situação diferente. Seu rosto está queloideado até o pescoço, como raízes de árvores levantadas, como o significado do nome de Racine. Racine, interpretada por Kara Young, é uma beleza no rosto, mas uma bala no corpo, pronta para atacar qualquer um que recue de nojo ao ver sua irmã, interpretada por Mallori Johnson. A cena de abertura é em flashback sépia e mostra os gêmeos ainda crianças, filmados de costas, em um playground. Uma criança provoca Anaia fora da tela, levando Racine a espancá-lo até sangrar.

Um dia, Racine recebe uma carta de uma mulher que afirma ser a mãe dos gêmeos, Ruby, pedindo-lhes que venham vê-la, pois ela está morrendo. Anaia, sentindo-se rejeitada pelo fato de a carta ser endereçada apenas a Racine, encolhe-se de dor, como um gato de rua. Como ela foi esquecida? Racine e Anaia não são um só? As irmãs, escovando os dentes, falam telepaticamente, pensamentos íntimos impressos em legendas na tela. Quando vão ao encontro da mãe, o encontro é um choque para os gêmeos; a cena, em seu esplendor gótico, é um choque para o espectador. Ruby, interpretada por Vivica A. Fox, é uma rainha acamada, mumificada em bandagens de compressão, imóvel exceto os lábios, e atendida por enfermeiras com brincos de aldrava de ouro, como se fossem damas de companhia, que lixam as unhas das garras e trançam as cordas da peruca. Uma máscara obscurece suas cicatrizes extraordinárias. Racine, maníaco pelo zelo, argumenta que Ruby deve ser Deus, visto que ela criou os gêmeos. Em flashback, esse deus nos conta o que aconteceu com ela. O pai dos gêmeos (Sterling K. Brown), creditado como Homem no roteiro, entrou na casa da família, deixou-a inconsciente e ateou fogo nela. (Ele leva um tiro da boca para baixo, no estilo clássico do campo de terror.) As chamas reivindicaram as meninas como garantia, deixando cicatrizes em ambas, mas desfigurando Anaia, que trabalhou arduamente para salvar Ruby. Ela informa às filhas que o pai namorou outras mulheres e dá-lhes informações para orientá-las no caminho. Seu último desejo: “Faça seu pai morrer”, ordena Ruby/Deus. “Realmente morto.”

Os críticos moldaram este filme no molde gótico do sul, invocando “Eve’s Bayou”, de Kasi Lemmons, e no molde da tragédia grega, invocando Sófocles. Claro. Mas há um antecedente mais próximo, que deve estar sempre presente quando nos deparamos com o díptico das irmãs crianças: “A cor roxa.” (Ao usar o tema dos gêmeos, Harris, um dramaturgo que encenou pela primeira vez “Is God Is” no Soho Rep há cerca de oito anos, está se concentrando no espectro do amor de irmã que há muito assombra a literatura negra.) Harris adotou a pátina religiosa da história de Alice Walker – principalmente a reivindicação do Deus cristão, para quem Celie escreve suas tristes anotações em seu diário depois de ser separada de sua amada irmã, Nettie, pelo monstruoso Pa e pelo vingativo Senhor – e suja-o, sabiamente. Celie perdoa seus algozes, em “A Cor Púrpura”, inaugurando a redenção no final do romance e do filme; Harris priva sua história daquela batida final e harmônica. Uma energia herética alimenta o roteiro de “Is God Is” (embora a flexão e torção da linguagem de Harris não seja igualada pela esfera visual do filme, que nunca reflete o arrepiante quadro fílmico da moribunda Ruby e suas enfermeiras). E assim, naturalmente, uma controvérsia antiquada está se formando em torno do filme. Blasfêmia, os detratores– muitos dos quais são negros e homens – estão reivindicando. Como ousa o filme retratar Deus como feminino e assassino? Como ousa retratar o Homem como insensível e abusivo? A retidão é um disfarce para a raiva egoísta e também ecoa a recepção de “A Cor Púrpura”, há duas gerações, que foi criticada por ser uma representação dita perigosa dos homens negros.

Spoilers à frente. Deus ordenou uma cruzada. “Não somos assassinos”, insiste Anaia. Racine, com a voz se movendo como lama, retruca: “Viemos de um homem que tentou matar nossa mãe e de uma mãe que quer matar aquele homem. Está no sangue”. Sua arma preferida, inventada por necessidade, é uma pedra na meia. Na estrada aberta do deserto, Racine e Anaia rastreiam as outras mulheres com quem Man se envolveu, seguindo seu rastro como cães de caça. Eles conhecem uma líder de culto, Divine (Erika Alexander), e uma dona de casa reprimida, Angie (Janelle Monáe), que é a última esposa de Man. Os confrontos resultam em assassinatos selvagens e libidinosos. A odisséia finalmente leva os gêmeos a uma mansão burguesa no deserto, o lar de Man para sua família substituta, que inclui outro casal de gêmeos: dois jovens robustos, Scotch (Xavier Mills) e Riley (Justen Ross). Anaia e Racine posam de strippers, encomendadas para os meninos gêmeos, presume-se, pelo papai. É Racine quem fica excitado ao tirar sangue; Anaia estremece, com a moral comprometida. Nesta história de trauma herdado, Anaia e Racine podem ser vistos como metades de uma consciência compartilhada: raiva vivendo com docilidade, agência vivendo com passividade. A percebida feiúra de Anaia lançou sobre ela a nobreza de sofredora. (Nós nos juntamos a ela em nossas mentes com a sitiada Celie, os olhos dessas mulheres brilhando fracamente para nós.) No final do filme, o Homem encontra seu destino, um fogo purificador, que também leva Racine. A última cena é de Anaia, que estava grávida secretamente, abraçando feliz o filho numa espécie de Éden, lançando um mito alternativo.

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