Tentar descobrir quem você é pode ser um processo complexo. Fica ainda mais complicado quando a política de identidade impede que você seja totalmente assimilado pela cultura em que nasceu. É uma frustração que o cineasta nipo-brasileiro André Saito conhece muito bem, apesar de ser um nipo-brasileiro de segunda geração, num país que contém a maior população japonesa do mundo fora do Japão. Sentindo-se compelido a canalizar sua mágoa e raiva de décadas decorrentes de experiências com microagressões raciais em seu país natal devido à sua ascendência japonesa, Saito fez seu último curta-metragem, Amarelatermo que significa “amarelo” em português.
Tendo como pano de fundo a Copa do Mundo de São Paulo de 1998 entre Brasil e França, Amarela segue Erika Oguihara (Melissa Uehara), de 14 anos, uma nipo-brasileira fanática por esportes que se rebela contra as tradições culturais mais japonesas de sua família. Quando Erika deseja comemorar com outros torcedores da cidade, as tensões aumentam durante a partida, e Erika se torna alvo de ódio equivocado quando o jogo piora.
Além de entrar na lista de finalistas do Oscar de 2026, o filme de 15 minutos também recebeu indicações no Festival de Cinema de Cannes, no Festival Internacional de Curtas-Metragens de Clermont-Ferrand, no Palm Springs International Short Fest e no TIFF. Também ganhou o Prêmio Canal Brasil de Curtas-Metragens no Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo.
Abaixo, Saito abre o Deadline sobre a importância de manter o orgulho e ao mesmo tempo investigar a complexa dualidade da política racial.
PRAZO FINAL: Como nipo-brasileiro, o quanto você é dessa história?
ANDRÉ SAITO: Em 1998, eu tinha 14 anos. Eu era fanático por futebol e estava muito animado com a final porque era Brasil e França, e foi uma tragédia nacional [France won 3-0]. Mas quatro anos antes, foi inesquecível quando o Brasil conquistou o campeonato pela quarta vez. Em 1998, o Brasil tinha um grande time; todos estavam unidos e gritando em uníssono, mas ainda assim acabamos perdendo para a França. Foi trágico e traumático naquele momento porque eu estava com o coração partido. Mas, ao mesmo tempo, sempre lutei para pertencer e usei o futebol como uma ferramenta inconsciente para me conectar com a identidade e a cultura nacional brasileira fora da minha casa. [As a person of Japanese descent]sempre fui afirmado e visto como estrangeiro, como alguém exótico, diferente, estranho, não normal, não branco.
PRAZO FINAL: Quando você descobriu que queria ser cineasta para contar suas histórias sobre a ocupação desse espaço único?
SAITO: Meu irmão e meu pai são engenheiros. Meu pai esperava ter outro engenheiro em sua família [laughs]. Sinto que se tivesse seguido as tradições de casa, seria engenheiro. Mas quando estava estudando comunicação, fiz um curta-metragem. Era muito imaturo, claro, e eu tinha 17 anos. Gostei muito de como conseguia retratar meus sentimentos que antes continha, ou melhor, sufocava. Eventualmente, senti que a câmera poderia ser uma ferramenta para me conectar com outros seres humanos, de coração a coração, e também percebi que poderia expressar meus segredos mais profundos. [I felt my best] quando trabalhei com um ator famoso aqui no Brasil em um curta-metragem. Quando ele estava atuando em uma cena difícil, ele fez uma cena linda, e eu fiquei realmente impressionado com isso. Eu não conseguia acreditar que escrevi e dirigi esse cara, e que um ator [of this caliber] incorporou minha direção e escrita em sua performance. Isso me incentivou a fazer muitos outros filmes, estágios, videoclipes, publicidade, documentários e depois meus curtas.
Mas anos atrás, quando fui ao Japão pela primeira vez, foi realmente poderoso conectar-me com nossos ancestrais. Conhecemos alguns familiares lá no Japão e percebemos o quanto somos brasileiros. Então comecei a realmente investigar minhas raízes e origens. Comecei a fazer as pazes com essa identidade que tenho, e que neguei por mais de 30 anos da minha vida, ser nipo-brasileira. Sempre quis ser considerado e afirmado como brasileiro, mas como diz meu fenótipo, nunca foi assim. É tão estranho me sentir estrangeiro em meu próprio país, mas sinto que o cinema e a produção cinematográfica trouxeram muita cura, muitas conexões fortes e muito processamento com minha família, para que eu pudesse expurgar minha dor e retratar as belezas de estar no [world].
PRAZO FINAL: Há muitas maneiras de lidar com a alteridade e a discriminação. Era Amarela sempre vai girar em torno do esporte, ou você pensou em outras formas de falar sobre isso?
SAITO: Decidi pelo futebol porque era fanático, porque quando é a Copa do Mundo aqui no Brasil todo mundo fica louco, então há uma euforia coletiva. E pensei que a euforia seria um cenário muito bom para comparar o conflito interno e a crise de identidade que esta menina tem. Ela quer e deseja ser brasileira e torcer [with other people, her classmates, other young people her age]mas, ao mesmo tempo, todos ao seu redor a excluem desse sentimento de pertencimento que acompanha um evento como esse. Além disso, há um falso patriotismo acontecendo porque temos este grande evento, e os esportes [culture] também contém muitos [discrimination]. Achei que esta seria uma boa forma de acrescentar também que esta jovem, que não tem o padrão [conventional] olha, então ela vivencia a xenofobia, o sexismo e outras discriminações que os asiático-brasileiros e filhos de imigrantes enfrentam.
PRAZO FINAL: O estilo da câmera portátil é muito envolvente. Você pode falar sobre por que dirigiu dessa maneira?
SAITO: Queríamos a câmera bem próxima da personagem para que pudéssemos sentir o quão sufocada Erika se sente. Eu estava sempre tentando cometer erros bonitos com a câmera por não enquadrar perfeitamente ou por não ser muito descritivo. Eu estava sempre dizendo ao DoP [Hélcio Alemão Nagamine]”Vamos cometer mais erros. Vamos atrasar um pouco. Vamos agitar a câmera.” Por exemplo, a última cena tem quase quatro minutos de duração. Eu disse ao DoP: “Apenas sinta-a, e sempre que sentir, vá para o [food she’s making] e não volte para o rosto dela. Vamos ver onde ela está. [After experiencing an incident]ela acaba ficando sozinha na cozinha, onde deveria estar cozinhando e servindo. São muitas camadas de tristeza, e é trágico para ela porque o Brasil perdeu o jogo, mas ela também chora por muitos outros motivos [related to the frustrations of life]. Naquela cena, estávamos sempre tentando não ser tão descritivos e ser mais sensoriais.
PRAZO FINAL: O que significa ter conseguido a lista de finalistas do Oscar de 2026 e o que você gostaria que as pessoas tirassem do filme?
SAITO: Tem sido muito louco e surreal porque antes disso o filme foi selecionado para mais de 100 festivais em 35 países. Fizemos muitas exposições em escolas, inclusive uma na Soka University of America, na Califórnia, local onde estudei e onde sofri muita discriminação. Portanto, estou entusiasmado por ter chegado até aqui e sinto um senso de responsabilidade por representar muitas pessoas no Brasil e no mundo.
Quanto à mensagem do filme, acho que muito é sobre identidade, pertencimento, sentimento e abertura de espaço para que nossos sentimentos surjam. É uma questão de aceitação, respeito e empatia. Acho que o filme nos desafia sobre como temos tantas nacionalidades estereotipadas. É uma declaração sobre a diversidade, respeitando as nossas próprias individualidades e abrindo as nossas mentes para [not wrongly perceiving other people]porque a empatia é importante.
[This interview has been edited for length and clarity]











