Após ser finalista do Prêmio Sesc de Literatura, aos 24 anos de idade, o criador do site Homo Literatus, Vilto Reis, abre uma editora e publica seu primeiro romance: ‘Um gato chamado Borges’. Formado em Publicidade e Propaganda, o escritor é também autor do TCC “As teorias narrativas de Hitchcock aplicadas à Psicose”, referenciando sua admiração por Alfred Hitchcock, o brilhante cineasta britânico.

Nascido em Blumenau, Santa Catarina, ele é criador e idealizador do site Homo Literatus, além de cocriar o podcast 30:MIN, a revista Pulp Fiction e a Editora Nocaute. Tem contos publicados em sites e revistas online, nos livros Projeto Beta (2015) e ‘Sentimentos à flor da pele’. Seu romance ‘Um gato chamado Borges’ (Nocaute, 2016) foi finalista do Prêmio Sesc de Literatura. Criado em bairros periféricos, estudou em escolas públicas e se formou na universidade regional de sua cidade.

Vilto Reis e um gatíneo

O autor afirma que apesar de não poder pontuar uma data específica, ele era uma criança que amava a leitura. Sua relação com a leitura e com a escrita sempre foi muito natural, podendo ser tida até como recíproca.

“Sempre gostei de ler. Era do tipo de criança que tinha carteirinha da biblioteca e a bibliotecária olhava desconfiada quando eu devolvia os livros.”

– “Tem certeza que tu leu? Tão rápido assim?”, dizia ela.

Muito influenciado por Kafka, Borges, Kerouac, Mishima, Murakami e Rubem Fonseca, Vilto começou a escrever de fato após iniciar a faculdade de publicidade. Ele percebeu que tudo criado na época era pouco e decidiu abrir um novo projeto, iniciando o site ‘Homo Literatus’. A princípio a ideia era escrever mais e manter uma frequência criativa. Por consequência disto, ele começou a escrever ficção, e logo a frequência se tornou cada vez maior.

“Iniciei escrevendo contos de terror, ficção científica e fantasia. Não era minha praia. Fui para os romances. Escrevi uns três antes desse que saiu, até chegar no Gato.”

Como um profissional formado em Publicidade e Propaganda, ele direciona seus rumos de várias formas que convergem com a escrita.

” O meu protagonista, por exemplo, é um cara que é radialista. Não por acaso, uma das matérias que tive na faculdade. Minha formação também colabora na hora de tocar os projetos na internet, mas na escrita o que faz diferença mesmo é ler, escrever e reescrever o tempo todo.”

 Confiante após ser finalista do Prêmio Sesc de Literatura, na categoria romance, em 2015, o autor conversou com editoras e agentes literários para tentar a publicação. Contudo, poucas foram as respostas e as negativas geraram um novo interesse.

Acostumado a fazer leitura crítica de obras originais, editar revistas de contos e gerir o site ‘Homo Literatus’ por mais de cinco anos, Vilto Reis decidiu dar um passo importante. Ao lado de Maik Barbara, criou a Editora Nocaute após um financiamento coletivo para publicação do livro e abertura da empresa.

A Editora Nocaute surgiu no ano de 2015, de uma forma tão natural e jovial, que parece conto de uma história poética.

“Embaixo de um guarda sol, na praia dos ingleses, em janeiro de 2015, parte dos colaboradores do Homo Literatus estavam reunidos, bebendo e jogando conversa fora, quando perceberam que tinham um grupo de pessoas suficiente e qualificado para criar uma editora. Após dezoito meses trabalhando no projeto, lançaram no Catarse.”

Para Vilto, o objetivo da Nocaute é publicar escritores brasileiros ainda desconhecidos, tanto para o mercado nacional, seja ele impresso e/ou digital, como para o mercado internacional, através de ebooks.

A curiosidade de diversos leitores sobre o livro paira sobre dois nomes constantemente presentes no livro: ‘Borges e São Brandão’. Afinal, de onde vem o nome do gato chamado ‘Borges’, e a pacata cidade de ‘São Brandão’?

Vilto conta que “Borges” é uma homenagem a um de seus escritores preferidos, o Argentino Jorge Luis Borges, o qual ele se refere como “escritor fantástico”. Lembra de um de seus contos “O jardim dos caminhos que se bifurcam”, uma das principais inspirações da trama de ‘Um gato chamado Borges’, já que para ele, a ideia se assemelha ao labirinto.

Já “São Brandão” é o santo protetor dos pescadores. Como no Brasil é comum nomear cidades com nomes de santos, Reis considerou que seria verossímil chamar esta cidade fictícia com este nome, que para ele além de ter tudo a ver com a história que se passa no litoral é um encaixe certo com o enredo.

Mais de duzentas pessoas acreditaram na ideia e apoiaram financeiramente o projeto da editora e de Vilto. Hoje, ‘Um gato chamado Borges’ chega aos leitores diretamente no site da Editora Nocaute, via Depósito Bancário, PayPal ou PagSeguro.

“João Meireles pensou que ia realizar o sonho de fugir da cidade e de seu passado para viver na praia, mas em seu primeiro dia de trabalho como locutor de rádio teve de noticiar um suicídio. O inverno despertava um desejo de morte nos nativos de São Brandão. Agora todos os dias, ele precisa dar notas de falecimento, como se não bastassem os boatos de que seus próprios pais teriam se suicidado ao ficarem ilhados em uma enchente.

Por mais que se proponha a investigar a motivação dos suicídios, suas amizades equivocadas com Jaques de Mello (proprietário da rádio e prefeito da cidade) e Cauan (dono de uma pousada) apenas fazem com que coloque sua vida em risco. Os nativos não se mostram solícitos em ajudá-lo.

No entanto, a relação travada com Camile Kuromatsu e Benjamin Ancine – um ex-crítico de arte assombrado pela perda da esposa, mãe de Camile – propiciam a João Meireles o conhecimento de um personagem denominado V. Dois anos antes, esse sujeito teria morado ali em São Brandão, porém desapareceu, deixando Camile apaixonada e aos demais sem respostas. Deste ponto em diante, a verdadeira trama do livro se revela. Um gato chamado Borges assume ares metafísicos, seguindo uma tradição borgeana do duplo, do labirinto e do questionamento da autoria do texto.

Um Gato Chamado Borges é um jogo de percepções. Enquanto finge narrar a investigação de suicídios em série em uma cidadezinha, montada num mosaico de situações cotidianas, calcadas em um humor ligeiro, mas que ao mesmo tempo carregam um toque de absurdo literário. É na cola que une esses cacos, nos entremeios e entrelinhas, que se dá a brincadeira do livro. Ao entender o jogo, o leitor se torna o próprio detetive, e além de suicídios, se descobre investigando o próprio ato de narrar a história.” – ERIC NOVELLO, tradutor e autor do livro Exorcismos, Amores e uma Dose de Blues (Gutenberg, 2014)

Inspirado pelo poema ‘Mar absoluto’, de Cecília Meireles, Vilto Reis escreveu a primeira versão do romance em vinte e dois dias. Depois engavetou o manuscrito por cinco meses enquanto redigia sua monografia, o estudo das narrativas fílmicas do diretor de cinema Alfred Hitchcock. Ao tornar ao rascunho, realizou modificações com base nos estudos, criando mecanismos de suspense para prender o leitor. Ainda assim, criou um livro que não se prende a gênero algum. Faz referência a Rubem Fonseca, Paul Auster, Daniel Galera, Haruki Murakami e Jorge Luis Borges, mas mantém a linguagem contemporânea do autor.

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Escritor, ator, jornalista. Sagaz e constantemente zueiro. Rei das referências e amante eterno daquele nome que mora no fundo do poço. Manja de NFL.