“Vestir a camisa” é uma expressão que significa abraçar uma causa e viver em prol dela. Mesmo a primeira referência que vem à mente quando pensamos nisso seja algo relacionado à esportes, a explosão da cultura pop e a “renascença nerd” trouxe isso para o cinema. Fazemos cosplays, ou andamos com as camisetas de nossos atores, diretores e filmes favoritos, e os levamos no peito, como uma causa que defendemos.

E, curiosamente, absorvemos qualquer crítica feita à nossa camisa como uma crítica feita a nós mesmos.

Essa era de extremos que permeia a sociedade que vivemos hoje, nos faz a valorizar cada segundo do nosso tempo de maneira pragmática, decidindo “o que vale, ou o que não vale” a pena ser assistido, ouvido ou feito, perdendo as nuances que cada uma dessas ações tem.

Mas o impacto disso não está somente na nossa crítica interna, pois nos viramos para as pessoas ao nosso redor e demandamos o porquê de ela “perder tempo” com este filme, série ou música, obrigando essa pessoa a justificar como ela aproveita seu entretenimento e lazer.

Sermos questionados em como estamos administrando o nosso tempo – que é bem mais caro que a pós-modernidade possui – soa como uma acusação, e, acuados, abraçamos os nossos filmes, atores e diretores favoritos como se fossem parte de nós mesmos. A partir do momento que é estabelecido um vínculo emocional com aquele produto cultural, a própria conexão com ele justifica dedicar horas da vida à ele.

É daí que provém a necessidade que sentimos de nos explicarmos quando assistimos ao novo Velozes e Furiosos – tendo que dizer que é “divertido e não pode ser levado à sério” – ou quando revemos toda a franquia Harry Potter em um final de semana. Em última análise, a resposta poderia ser simplesmente “porque eu quis” – ou, em uma variação talvez menos grosseira, “porque me entretém”.

Velozes e Furiosos 8

Em uma camada posterior, há o fato de que existe uma carência de identidade na sociedade ocidental, de forma que absorvemos o que gostamos como parte de nós. Nossa ruptura necessária com os hábitos e padrões das gerações que nos antecederam faz com que cresçamos tendo maior dificuldade em definir quem somos, ou qual é o nosso papel dentro do contexto social. Por não aceitarmos as definições de nós que nos eram forçadas por pais e avós, nos vimos buscando um significado fora de nós mesmos – principalmente no consumo, na arte e nas relações. A partir do momento em que sente-se falhas e escolhe-se odiar todos os filmes do Shyamalan, por exemplo, aquilo não mais é só um gosto ou preferência; odiar o diretor passa a ser um traço da própria identidade da pessoa.

Por causa desses fatores, nos sentimos obrigados a argumentar a favor do que gostamos com unhas e dentes, pois toda vez que alguém critica algo do nosso gosto sentimos que a crítica é voltada diretamente contra nós. A partir daí, a triste consequência de defender e, em alguns casos, brigar por causa de cinema torna-se natural; não estamos protegendo algo que nos divertiu ou emocionou. Estamos protegendo a visão da nossa própria identidade, a qual foi construída com base na cultura pop.

Marky Mark conversando com uma planta de plástico em The Happening (Fim dos Tempos, 2008), de Shyamalan

É importante nos relembrarmos, de tempos em tempos, de que não precisamos justificar nossos gostos e escolhas de entretenimento: ser fã do Adam Sandler ou só assistir filmes de Tarkovski e Bekmambetov não nos torna pessoas melhores ou piores, apenas demonstra como gostamos de passar o nosso tempo. Consequentemente, caso alguém diga que o Sandler é um estorvo para o cinema e que Tarkovski não fez um filme interessante na vida, isso não deve nos ofender. Embora possamos ser afetados e permanentemente modificados por um filme, no caso do cinema, nós não somos o que consumimos.

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Nasci no dia 11 de novembro de 1995 e hoje moro no litoral catarinense, onde também curso Jornalismo na Univali. Além de ser o fundador e idealizador do Q Stage, o qual me dedico desde 2014, sou músico e trabalho como produtor de conteúdo audiovisual.