É infeliz de se observar os dados constatados que refletem a nossa sociedade, onde entre 40% e 70% das agressões físicas contra mulheres, ou feminicídios são causados pelos próprios parceiros, segundo a OMS, e com a média de uma agressão ou morte a cada 15 segundos.

Ou a diferença salarial, onde as mulheres recebem menos do que os homens pelos mesmos trabalhos, isso sem falar no problema do “teto de vidro”, que consiste em as cobranças para grandes cargos serem desproporcionalmente maiores e acabam tendo como opção mais viável o trabalho doméstico, tal situação é ainda mais comum com a constante falta de apoio do parceiro nas tarefas domésticas.

Já adentrando tais reflexos sociais na cultura pop, o problema do “teto de vidro” foi representado logo na primeira aliança de “super-pais”, com Reed e Sue Storm na edição: “Quarteto Fantástico Anual V1 n°6” em 1968, onde a Sue tomou conta da criança por ser a mais “apta” e acaba sendo substituída pela heroína Frost. (Sendo bem analisado pela escritora Laura D’ Amore, em seu texto “Accidental Supermom”).

Sue Storm após o parto.

Mas um dos casos mais polêmicos é do relacionamento abusivo da Alerquina com o Coringa.

A Doutora Harley Quinzel, chamada assim antes de adotar o seu pseudônimo criado pelo Coringa, era uma psiquiátra experiente e visitara o palhaço do crime em consultas reservadas, afim de tratar a sua loucura.
Com um seu “charme”, o Coringa não só a conquista, mas maneja a mesma a desenvolver um plano de fuga do Asilo Arkham.

Dr. Harley sendo seduzida pelo Coringa, em Esquadrão Suicida (2016).

Após isso, o Coringa constantemente a abusa, física e psicológicamente, enquanto cada vez mais a Harley se apaixona por ele, uma demonstração crua e doentia de síndrome de Estocolmo. Sendo muito mais violenta nos quadrinhos, do que nas animações, da onde a personagem nasceu.

Mas afinal, o Coringa, sádico do jeito que é, não seria de rotineiro ser abusivo e violento com qualquer ser? Principalmente os mais próximos a ele?

Bom, isso é dúbio, vejamos, o Palhaço é um personagem idolatrado por muitos, sendo motivos de vendas de milhares de quadrinhos mal feitos e filmes porcamente roteirizados (como o último da DC, Esquadrão Suicida).
É muito complexo a abordagem de algo tão vil, ser representado por uma caracterização tão carismática.

Veja, realmente, em novelas gráficas, produzidas por escritores renomados e com traços de cair o queixo, o carisma deixa de ser positivo e passa a ter uma visão mais negativa.
Como o abuso físico e mental da Comissário Gordon, reforçando o Coringa alejando a sua filha, em a “Piada Mortal” ou o forte assédio sexual e psicológico contra o Batman no quadrinho “Asilo Arkham”. O Coringa é um psicopata despresível, com falta de moral e causa nojo ao leitor, um nojo romantizado, porém ainda grotesco.

E ainda fazendo uma ressalva de que, já fora mostrado um enloquecimento perante psiquiatras e criminosos nos quadrinhos, como em Watchmen VI (1987), entre o Roschach e o Dr. Malcolm Long, mas beira à ironia a mulher ser completamente mudada por um “amor a primeira vista” e incondicional e o doutor se mudar por uma série de consultas depressivas e agressivas de Roscharch, o deixando sem esperança num mundo da Guerra-Fria. Chega a ser cínico a objetificação da Harley em comparação ao Long, não?

A consulta de Roscharch, que levou o Doutor Long à insanidade.

Mas o maior problema é a mídia popular e como essa história é vendida.
Harley em filmes, jogos, ou até nos quadrinhos mais atuais, não passa de uma escrava sexual do Coringa, além da sua mente vil ser muito mais “amenizada”, fazendo aquilo se passar por um casal vendível.

Ou seja, faz-se muito mais dinheiro com uma maquiada em um casal abusivo, do que mostrar a podridão da Gotham “de raíz” nos cinemas. E isso sem citar a sexualização e objetificação da Alerquina em todas as mídias e representações (além da sexualização do próprio Coringa em sim, basta pegar uma foto do Jack Nicholson no Batman de 1989 e o do Jared Leto do Esquadrão Suicida do ano passado).

O Coringa de Jack Nicholson.
E o Coringa de Jared Leto.

Aqui foi citado apenas dois casos do “universo Geek”, dentre inúmeros, que após ano e ano, tende a permanecer com a mesma visão dos anos quarenta, salvando algumas exceções, com uma mulher cada vez menos representada de forma realista, afastando leitoras, e perpetuado machismos que já deveriam ter sido esquecidos no tempo.

Mas, observando de uma forma positiva, em um mundo com Arlequinas e Sue Storms objetificadas, há cada vez mais Princesas como a Leia Organa, Jedis como a Rey e heroínas como a Ellie de “The Last of Us”;

Ellie, uma das protagonistas do gane The Last of Us, mostrando um novo ar na representação feminina na cultura pop.

fazendo assim, com que as gerações futuras de mulheres quadrinistas e cineastas acabem com as tradições sexistas, inspirando e representando cada vez mais o papel da mulher na cultura popular.

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Sonolento e cético, estabanado e viciado em café. Apreciador de músicas demoníacas desconhecidas, mas também dança todas do molejão quando ninguém está olhando. Ama filmes de terror e giallos, mas incapaz de pegar um copo de água na cozinha de noite.