Seriados estão em alta. Todo mundo tem o seu (ou os seus) favoritos. Livros que antes seriam adaptados para os cinemas  – encarando a dura tarefa de condensar dezenas de milhares de palavras em cerca de duas horas – vêm sendo levados às telinhas. Da fantasia à ficção científica, do horror à crítica social, há um seriado para todos os gostos.

No meio desse boom das séries de TV, estamos nós, espectadores. Alguns de nós nos perguntando o que aconteceu. Outros só querendo saber o que vem pela frente. Mas todos somos afetados pela mudança radical que o entretenimento televisivo tem sofrido. Como as séries são produzidas, como esperam que sejam assistidas e quanto tempo elas pedem de seus espectadores.

E enquanto tentamos entender isso, mais e mais livros como Altered Carbon, Leviathan Wakes, Desventuras em Série e Caçadores de Trolls passam a ir para as telinhas, acompanhados de um número crescente de heróis da lista C, quadrinhos obscuros e produções originais que, em um passado não tão distante, iriam aos cinemas para um fracasso retumbante.

Da serialização à sindicação e de volta outra vez: rumo ao binge watching

Verdade seja dita, o consumo atual de séries de televisão não é como o de antes. Se outrora o consumo das séries de TV se dava em doses de uma hora, oferecidas pelos canais de televisão com base nos retornos de anúncios, hoje a principal forma de consumo se dá cada vez mais através de serviços de streaming e boxsets com temporadas completas, consumidos vorazmente em maratonas.

Tampouco é o formato: antes limitados pelos horários ofertados pela televisão e a exibição semanal, hoje a produção de séries de TV (e de internet) é cada vez mais pensada como uma única grande história cortada em pedaços – e não várias histórias com um tema e um elenco em comum. Hoje, até as séries de antologias – compostas por histórias não relacionadas, no equivalente televisivo de uma série de contos – hoje são serializadas, como American Horror Story e True Detective, com uma única trama por temporada

Essa mudança de formato nas séries não é exatamente um fenômeno novo. A produção serializada mudou muito desde sua alvorada ainda antes da TV – no formato dos serial films dos anos 30 e 40, histórias em episódios exibidas nos cinemas, quase sempre baseadas em contos pulp ou heróis de quadrinhos, encerrando-se em um cliffhanger que deixava as audiências na ânsia por sua conclusão. Com a chegada da TV, os seriais deram lugar à produções televisivas, então mais baratas. Algumas séries – como a britânica Doctor Who – seguiram o formato serial de seus antecessores.

Em sua grande maioria, no entanto, a produção de TV se focou em histórias episódicas, com o mesmo grupo de personagens, mas uma noção vaga de continuidade. Não havia na maioria das séries de TV dos anos 50, 60 e 70 a intenção de contar uma “grande história” tanto quanto de contar várias histórias com o mesmo tema, e esse padrão foi fortalecido nas séries dos EUA com a transmissão por sindicação no início dos anos 70 – com várias séries sendo vendidas para outros canais e exibidas sem ordem específica. Essa época é o auge das antologias, com séries como Além da Imaginação, A Quinta Dimensão e Galeria do Terror. Sem relação entre os episódios, eram material perfeito para um público que raramente se dava o tempo de acompanhar minuciosamente tramas longas.

No final dos anos 80 e começo dos anos 90 isso começa a mudar, em parte devido a organização dos fandoms e a entrada de novos diretores mudando um pouco a forma como a produção para TV era vista. Embora as séries desse período tivessem mais continuidade do que antes, ainda eram em sua maioria episódicas com alguns arcos narrativos de vários episódios e uma trama maior que permeava a série inteira – resolvida ou não. A cisão com a compartimentalização narrativa é mais perceptível em séries como Buffy: A Caça Vampiros e Angel, de Joss Whedon, e principalmente, Heroes, de Tim Kring: a “trama maior” da temporada não era um elemento de fundo, mas a trama A. O mesmo se via em Arquivo X, de Chris Carter – que começou operando de forma episódica, mas rapidamente foi tomada por uma trama maior. Enquanto as séries de Whedon, e muitas outras, ainda operavam na forma de “trama da semana”, a epopéia super-heróica de Kring era um longo retorno ao formato serializado: cada capítulo dependia do anterior e do próximo, tornando a série incompreensível se vista apenas por suas partes.

Série Heroes
Série Heroes | Foto: Divulgação

Embora Heroes tenha sido um relativo fracasso, seu modelo narrativo serviu de base para a produção serial nos anos seguintes. Poucas são as séries não humorísticas de hoje que não são produzidas como uma longa história cortada em capítulos, com mais profundidade do que o velho modelo de episódios isolados – e essa estrutura narrativa recompensa quem se dá o tempo para assistir tudo de uma vez só. Esse padrão não se restringe à TV: o quadrinista britânico Warren Ellis chamou isso de “narrativa descomprimida” e a usou na HQ Authority, de 1999. Hoje, a maior parte das revistas em quadrinhos são narrativas descomprimidas, feitas para serem consumidas na forma de trade paperbacks.

Essa mudança na construção narrativa de séries tem sido bem documentada por críticos de TV, assim como o aumento de qualidade que a acompanha – com mais tempo para desenvolver e explorar a narrativa, os personagens ganham profundidade e a televisão assume ares de “literatura” mais séria, em um cenário ideal.

A internacionalização do acervo

É fato que temos mais séries sendo produzidas a cada ano. Segundo o IMDB, em uma listagem incompleta, somente nos EUA são 73 séries novas em 2017, além de todas as séries renovadas. Mas a   de seriados aos quais se tem acesso hoje em dia não se deve apenas ao aumento na produção – catapultado pelo aumento no número de canais e de serviços que vem produzido seu próprio conteúdo – ,mas também em decorrência da globalização do consumo televisivo.

Até poucos anos atrás, quem quisesse assistir uma série fora do eixo Brasil-EUA-Inglaterra tinha que se contentar com traduções não oficiais e caminhos tortuosos para encontrar aquilo que procurava. Ou com a rara possibilidade de que algum canal exibisse a série em questão. Hoje, as coisas são diferentes: serviços como a Netflix lentamente começam a ofertar séries indianas, chinesas e coreanas, o Amazon Prime começa a exibir séries japonesas e serviços como o Crunchyroll se especializam em animações nipônicas.

A velocidade com a qual o leque de séries legalmente e facilmente acessíveis cresce se torna maior do que a velocidade com a qual novas obras são feitas – em decorrência dessa internacionalização do leque. Produções como a turca Kurt Seyit ve Sura e a chinesa Ice Fantasy antes permaneceriam desconhecidas. Da mesma maneira, séries como a brasileira 3% e a espanhola Las Chicas del Cable não alcançariam o público internacional – e talvez não fossem produzidas – dentro do velho modelo de produção para TV e para o mercado local.

Aumenta a diversidade, mas também o investimento de tempo

Todas essas mudanças em como as séries são feitas, pensadas, consumidas e produzidas – em particular, a maneira como a produção delas se desprende das limitações da publicidade e da censura televisiva – têm gerado um aumento palpável na diversidade das produções.

Embora a “velha TV” tenha dado vários primeiros passos importantes (como o primeiro beijo interracial, em 1968, o primeiro beijo lésbico transmitido em rede, em 2002, ou a primeira série com uma protagonista abertamente lésbica, em 1997), a crescente migração para serviços por assinatura – e em particular, os de streaming – tem aberto portas para tópicos antes pouco abordados pelo formato.

Dear People White
Cartazes da série “Dear People White” | Fotos: Divulgação

Sem sofrer de restrições de grade horária, classificação etária ou anúncios, serviços por assinatura vêm oferecendo produções em um volume nunca antes visto, e que cobrem tópicos pouco tratados anteriormente. Séries como Sense8, Dear White People, Santa Clarita Diet e American Gods seriam impensáveis na TV americana de anos  atrás. Da mesma maneira, fossem HBO, Starz e AMC canais abertos, séries como Game of Thrones, Spartacus e Breaking Bad talvez nunca tivessem sido produzidas – ou sofreriam pesados cortes. The OA, da Netflix, abertamente rompendo com padrões de duração dos episódios, nunca seria exibida pela TV.

O avanço tecnológico também facilitou a diversificação nas séries de TV, assim como o fez pelo cinema. Gene Roddenberry, memoravelmente, defendia os efeitos especiais e de maquiagem precários de Jornadas nas Estrelas alegando que os espectadores “os preencheriam com a imaginação”. Hoje, tal desculpa não se faz mais necessária, e naves espaciais, monstros e super-heróis podem ser levados às telinhas com uma qualidade de cinema – cinema de vários anos atrás, de fato, mas ainda assim cinema.

Tudo isso, no entanto, vem com um custo pesado em decorrência do retorno da serialização narrativa e de sua descompressão: temos acesso a uma gama muito maior de séries – só em produções originais da Netflix, temos mais de 80, em vários gêneros – mas a natureza da narrativa da maioria delas significa que não é mais possível “assistí-las casualmente” ou entrar em um episódio qualquer, sem ter que se preocupar com continuidade. Em nossas infâncias e nos tempos de nossos pais, assistir uma série – digamos, a Super Máquina – pelo meio era como pegar uma revistinha ao acaso: havia ali um sinal de um “mundo maior” daqueles personagens, mas não havia a necessidade de ter lido as outras edições.

Hoje, no entanto, assistir um episódio de qualquer coisa além de uma comédia de situação – e até de algumas delas – é mais como abrir um livro por um capítulo aleatório. Até algumas obras de programação infantil tem se dedicado profundamente a narrativas descomprimidas, dependendo intensamente da dedicação do espectador para seguir cada episódio.

Em suma: temos mais séries, mas elas exigem mais de nós. Ou se assiste a série toda… ou não se assiste. E a espera pela próxima temporada, conforme as narrativas se tornam cada vez mais descomprimidas e menos centradas em uma única temporada, se torna cada vez mais agonizante.

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