Nos dezessete anos em que os filmes de super heróis tornaram-se uma tendência, apenas dois filmes protagonizados por “super heroínas” foram lançados: Mulher Gato (2004) e Elektra (2005). Considerados talvez os piores filmes do gênero desde Batman & Robin (1997)! Mesmo com o número de adaptações de quadrinhos crescendo e o fim do receio de produzir um filme protagonizado por uma mulher, vide franquias como Jogos Vorazes e a nova trilogia de Star Wars, é quase um absurdo pensar que em 75 anos de história, aquela considerada o maior ícone de super heroína, a terceira parte da Trindade da DC comics, a Mulher Maravilha, está ganhando seu primeiro filme apenas agora! Se por um lado essa demora foi frustrante, do outro o filme que está no cinema faz jus à espera.

Isoladas do mundo dos homens, as Amazonas vivem por suas próprias regras em Themyscira, lideradas pela Rainha Hippolyta (Connie Nielsen) e treinadas por Antiope (Robin Wright) para serem grandes guerreiras. Desde pequena, a princesa Diana tem essa paixão por luta e começa a treinar com Antiope, escondida de Hyppolita que quer proteger sua filha de perigos divinos. Os anos passam e Diana (Gal Gadot) torna-se uma guerreira notável, mas certo dia um avião aparece sobrevoando Themyscira e caindo na água. Diana salva o homem Steve Trevor (Chris Pine), o piloto do avião e espião de guerra que estava fugindo dos inimigos. Após as Amazonas verem na prática a ameaça do mundo dos homens, Diana acha que Ares, o Deus da Guerra está por trás dessa “guerra para acabar com todas as guerras”. Ela abandona Themyscira e junto com Trevor, parte para o mundo do patriarcado para dar um fim ela mesma nesse cenário devastado!

Das adaptações de quadrinhos que tivemos até agora e as que ainda virão, Mulher Maravilha é com certeza a mais importante desse ano e por motivos diferentes. A principal obviamente é por finalmente termos um filme da personagem depois de tantos anos e com pouquíssimos filmes de super heroínas e todos de péssima qualidade. O que já leva ao segundo motivo que é em criar esse interesse nos estúdios em cada vez mais produzir conteúdos protagonizados por mulheres e provar que eles não fracassarão por tal fato; contudo outra razão, mais superficial do que as outras, porém relevante para alguns, é o fato de Mulher Maravilha ser para muitos a última esperança nos filmes da DC comics! Nenhum filme até agora desse universo expandido agradou de forma unânime. Homem de Aço (2013) foi o menos criticado, mas ainda assim dividiu as opiniões; Batman Vs Superman (2016) é o filme mais polarizado dos últimos anos, mas a crítica norte-americana detonou o filme; e Esquadrão Suicida (2016), talvez o único em que a opinião foi unânime, mas de que o filme era ruim! Havia então esse último pingo de esperança ou a fria e sombria “DCpção”. Deixando de lado a visão pesada, negativa e cheia de filtros de Zack Snyder, Patty Jenkins e Gal Gadot entregam um filme solar, caloroso e acima de tudo, heróico!

A diretora em várias entrevistas mostrava, de forma entusiasmada, a sua visão para a Mulher Maravilha. De uma heroína que é guerreira, mas também feminina. Que se inspirava de certa forma em Indiana Jones e Superman (1978) para um filme mais aventuresco e de certa forma inocente! Gal Gadot, que já havia roubado a cena em Batman Vs Superman, consegue provar ter presença e carisma para protagonizar um filme de duas horas, passar a credibilidade de que é uma guerreira nata e ainda manter a ingenuidade naquele ambiente totalmente oposto ao que foi criada, que geram momentos cômicos, como também mais dramáticos. Mesmo no quesito atuação a atriz não convencer em um  ou outro momento das cenas em Themyscira, ela de maneira geral segura o peso de representar a Mulher Maravilha muito bem, principalmente ao que se diz dos seus valores enquanto heroína, mas falaremos disso mais adiante! Uma surpresa foi a dinâmica de Diana com Steve Trevor, que é uma das melhores coisas do filme. A química de Gal Gadot com Chris Pine é maior do que o esperado e o ator não só está a vontade no personagem, não demonstrando incômodo por estar em um papel coadjuvante (a própria direção de Jenkins mostra isso), como ele realmente comprou o projeto e não trata apenas como mais um trabalho!

Patty Jenkins deixa claro entender seus personagens, muito pela relação de Diana e Steve, mas mesmo outros personagens como as Amazonas ou os companheiros de Steve Trevor, que são personagens que têm um tempo de cena curto e pontual, conseguem de certa forma passar empatia para que caso algo de grave acontecesse, o espectador se importaria! Até os vilões, que não são tão memoráveis, tem um apelo mais caricato de vilões de seriado antigo, até com risadinha maléfica, que funciona. Entretanto no que se refere à sequências de ação, Jenkins demonstra uma certa inexperiência no assunto. A ação do filme usa e abusa do Slow motion, criando momentos bem estilosos, geralmente destacando um único elemento no meio de um plano aberto (o 3D não acrescenta em nada), porém quando se trata de sequências de luta corporal, Jenkins usa planos mais fechados que não favorecem o ambiente nem os golpes que os personagens estão trocando. As cenas de luta que merecem destaque são aquelas em que Diana está usando seu laço mágico, que flui muito bem sem nenhuma estranheza na computação gráfica, que é outro elemento questionável em alguns momentos, onde o CGI é muito nítido, principalmente no clímax, que é visualmente problemático, mas mantém o brilho pelo seu conteúdo e encerramento de arco da heroína! O que favorece as cenas de ação é o excelente e bombástico tema da personagem, criado por Hans Zimmer e Junkie XL em Batman Vs Superman e que tornou-se clássico desde já!

 A ambientação do filme é belíssima! No caso de Themyscira, com uma fotografia mais clara, sol o tempo inteiro, alegre, com os ambientes internos muito dourados, da mesma forma que a roupa das Amazonas e que acaba por ser o total oposto do mundo dos homens. Uma fotografia mais escura, suja, em uma representação muito bem feita de Londres em 1918, com vestes de grifes e cores menos vivas, deixando aquele clima mais pesado e triste da guerra. Enquanto as cores do uniforme da Mulher Maravilha, muito mais vibrante e contrastando nesse cenário, ajuda ao estabelecer ela como aquele ponto de mudança, de quem vai acabar com aquela tragédia. No quesito ambientação o filme  também acerta na parte cômica ao retratar o cenário machista da época com a presença de Diana naquele meio sem entender muito bem o que está acontecendo. Essa sequência se estende mais do que o necessario, mas as situações são bem sacadas!

O tom do filme é muito bem equilibrado. Não sendo muito sombrio ou melancólico como os filmes anteriores (ou tentando tornar um filme leve através da edição), Mulher Maravilha consegue ser o primeiro filme da DC que serve para ser visto enquanto puro entretenimento e diversão, porém ele não nega o clima pesado da guerra e quando necessita ser mais “maduro” e lidar com consequências mais sérias, humor e leveza são deixados de lado de maneira orgânica e talvez isso funcione por causa de um elemento único, o coração do filme, algo que estava faltando na DC: o heroísmo! Os valores que a Mulher Maravilha vem defendendo nesses 75 anos enquanto super heroína estão claramente em tela e não apenas enquanto arquétipo como vemos muito no Superman em Batman Vs Superman, mas nas suas atitudes e personalidade. De reagir sempre na ingenuidade, enquanto um desesperado Steve Trevor em um contexto todo diferente tenta impedi-la, até que ela não se submeta mais e tome a linha de frente; no seu olhar caloroso e dócil e por se preocupar com todos que passam por seu caminho, estabelecendo que a personagem ama a todos; a sua própria habilidade enquanto guerreira lhe permite lutar fisicamente para defender aqueles com quem ela se importa, mesmo sem conhecê-los. Um altruísmo que há tempos não se via. Receio em dizer que desde Homem-Aranha 2 (2004) eu não via os valores de determinado super herói tão bem representados na telona!

Em um mundo onde o Superman, o maior ícone de todos os super heróis, que carrega o “S de esperança” no peito, está conflituado com sua existência e o mundo se dividiu perante a sua figura e apenas se uniu quando o herói deixou de voar, Mulher Maravilha foi responsável por ser a grande figura de heroísmo que não só a DC, mas o cinema de super herói precisava! Mesmo em uma época onde rimos com os absurdos de Deadpool e nos divertimos com a Marvel, precisávamos de um retorno às origens, ao lembrar dos heróis enquanto símbolo e o que eles representam e não apenas  como entretenimento.

Nota:
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Estudante de Publicidade e Propaganda. Cinéfilo, adora Séries, leitor ativo de Livros e Quadrinhos.